burburinho

o homem que queria ser kubrick

cinema por Rafael Lima

Londres, começo da década de 1990: depois dos crescentes hiatos entre seus últimos trabalhos, o mundo se pergunta quando ficará pronto o próximo filme de Stanley Kubrick. Ao invés disso, é o próprio cineasta quem começa a dar as caras pela cidade. Ou, ao menos, alguém se fazendo passar por ele e, o que é mais estranho, com sotaque britânico e sem barba.

Alan Conway, aliás Eddie Alan Jablowsky, já tinha um histórico respeitável nessa altura: costumava contar para os outros que era um judeu polonês que escapara dos nazistas, cumpriu pena aos treze anos de idade por furto e, depois de um par de décadas de estabilidade, uma série de entreveros pessoais e profissionais o faria abandonar a esposa por causa de um amante gay - que seria vitimado pela AIDS em seguida, final da década de 1980. É nesse turbilhão que o falso Stanley surge.

Não é complicado imaginar o impacto que artistas e músicos marginais experimentavam ao descobrir que estavam conversando com um de seus ídolos, o diretor de Laranja Mecânica, um homem que angariava respeito por filmes dirigidos antes de muitos ali sequer terem nascido. Conway surfou na fama de Kubrick o quanto quis, em vista do vácuo aberto pelo caráter eremita do cineasta hirsuto, aproveitando-se dele para colher pequenas prendas (nunca pagou um jantar, sob as escusas de ter esquecido o cartão de crédito em casa) e recolher furtivos amantes, muitos deles vivendo com ele suas únicas experiências homossexuais na expectativa de um futuro promissor.

Entre os enganados estavam o cantor e showman inglês Joe Longthorne, que bancou-lhe estadia em hotel de luxo e cobriu-o de mimos, e o crítico de cinema do New York Times Frank Rich, que o convidou, junto com seus companheiros, a se juntar a ele numa mesa de restaurante. Rich não teria se surpreendido com a flagrante homossexualidade daquele Kubrick, apesar de seus casamentos, porque segundo ele, "todo mundo achava que o computador HAL (no filme 2001) agia como um amante gay ciumento".

Como Frank Rich, as pessoas se enganaram mais por ver o que suas imaginações projetavam do que propriamente por uma encenação convincente. Não se pode dizer que fosse um pilantra, um embusteiro, um 171 de carteirinha: Alan Conway estava tão enredado na teia de sucesso e celebridade quanto suas vítimas, à eterna espera de uma chance para seus parcos talentos, uma saída para aquela vida dura no underground. Chegou a admitir a farsa, com frases como "Eu realmente acreditava que era Stanley Kubrick" e "Eu poderia ter continuado até o dia da minha morte".

Só não continuou porque foi desmascarado numa matéria da revista Vanity Fair e assumiu as mentiras num programa de tv chamado The Lying Game. Coincidência mórbida, Conway faleceu apenas poucos meses depois de Kubrick.

Stanley Kubrick soube de tudo pouco antes da morte, tendo ficado fascinado com a idéia. Entretanto, em entrevistas posteriores ao enterro, sua viúva não poupou demonstrações de desgosto com a farsa.

A história de Alan Conway, porém, não termina aqui: foi transformada no filme Colour Me Kubrick, dirigido por Brian Cook e escrito por Anthony Prewin. Como interesse adicional, ambos trabalharam como assistentes de Kubrick em filmes como Eyes Wide Shut e O Iluminado, entre outros, como assistentes de direção e roteiro, respectivamente. E encheram Colour Me Kubrick com referências a filmes como Laranja Mecânica ou 2001, particularmente na trilha sonora.

Na tela, Conway é levado à vida em uma interpretação em tom camp, do nível do Capote de Phillip Seymour Hoffman, por John Malkovich, o que adiciona uma coincidência final à história. Malkovich também instigou uma troca de identidades: no roteiro de Charlie Kaufman para Quero Ser John Malkovich, uma pessoa descobre uma passagem secreta que o jogava dentro da cabeça do ator John Malkovich, uma premissa absurda desenvolvida à perfeição graças à incapacidade do todo o elenco em se levar a sério - a começar pelo próprio Malkovich, no papel de si mesmo.


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