burburinho

o homem que queria ser culpado

livros por Gabriel Perissé

Dos problemas psíquicos que afligem o ser humano das últimas décadas, a depressão é o mais freqüente. Dados disponíveis indicam que, hoje, 15% da população mundial sofre de depressão, e há suposições de que 30% de todos os habitantes do planeta têm ou terão pelo menos uma vez na vida um período depressivo. Afora os casos comprovadamente biológicos e até hereditários, nem todos os deprimidos o são por esses motivos. A depressão seria, para muitas pessoas fisicamente saudáveis, um problema filosófico, ético e estético, um "cansaço de ser si mesmo", para usar a expressão de Alain Ehrenberg, autor da hipótese de que o fenômeno depressivo deve-se muitas vezes a frustrações existenciais mal assimiladas, frustrações estas como não conseguir comprar um carro, ter sido reprovado num exame, sentir-se inútil, perder a capacidade de fazer amigos, carregar culpas anos a fio, deixar de ver a beleza da vida etc. O remédio, neste caso, não é químico, é metafísico. E literário. Lígia Fagundes Teles disse uma vez que se no país houvesse mais livrarias haveria menos farmácias. Esta hipérbole tem algo, ou muito, de verdade. Se incentivássemos mais a reflexão ética, a sensibilidade poética, a compreensão filosófica, talvez precisássemos menos de remédios.

O escritor e cineasta dinamarquês Henrik Stangerup (1937-1998), por exemplo, pode fazer parte de uma boa "receita literária". Um de seus livros mais famosos, O homem que queria ser culpado (Editora Nórdica), é um desses clássicos ocultos, mal difundidos em nosso país (mas felizmente já traduzido, como o foi em alemão, inglês, italiano etc), um clássico conhecido aqui apenas por uma imensa minoria que, a salvo do literariamente correto, procura e encontra livros inesquecíveis por sua inquestionável relevância.

O protagonista é o escritor Torben, que, num acesso de ódio, após muitos meses de desavenças, mata a sua mulher, Edith. O crime, no entanto, ocorre numa sociedade dinamarquesa supostamente avançada, que lembra as premonições de George Orwell - um mundo organizado em seus mínimos detalhes, em que tudo deve contribuir para a felicidade. O homicida, portanto, não é acusado de nada. A culpa não existe.

"Será que ainda não sabe que o conceito de culpa não existe mais?" - argumenta uma personagem - "São as circunstâncias que nos condicionam." Torben reage. Quer ser responsabilizado pela morte da esposa. A ausência de culpa impede-lhe o arrependimento, que lhe impede o perdão, que lhe impede a paz. Esta seqüência psicológica foi interrompida. Resta-lhe a solidão mais profunda. O absurdo kafkiano às avessas, mas nem por isso menos absurdo. Se em O Processo o personagem K é condenado sem saber por quê, Torben sabe que deveria ser condenado e não o é.

A consciência de Torben protesta. Ele intui que sua depressão, sua falta de inserção no mundo, a falta de sentido para viver, jamais serão curadas com uma justificativa socialmente correta, por mais que a maioria esteja "do seu lado". Torben reivindica para si o direito de ser acusado de assassinato como único modo de salvar seu direito de ser livre. Sem perceber, torna-se perigoso para a ordem social estabelecida. Neutralizada a culpa pessoal neutraliza-se também a consciência pessoal e, por conseguinte, a capacidade de crítica social. Se a sua culpa for resgatada, poderá também culpar a sociedade em que vive.

A normalidade está em ser falível e perfectível. Sem a culpa, Torben deixa de ser si mesmo e reclui-se na imaturidade moral. Stangerup retoma e ficcionaliza a linha filosófico-religiosa de Kierkegaard, pensador dinamarquês do século XIX, na base da qual está a busca transcendental da individualidade.

O homem que queria ser culpado acaba por ser preso num manicômio. E lá, planejando seus novos romances, depois de uma esterilidade criativa que há muito o atormentava, reencontra sua mulher no plano da imaginação e do sonho, pede-lhe perdão, e finalmente se liberta. Pela literatura, reencontra o caminho do amor, reconstruindo Edith: "Ele a descreveria quando amava, quando dormia com a face encostada no ombro e quando acordava e espreguiçava seu belo corpo. Sua descrição seria tão intensa que, por fim, ela reviveria, viria ao encontro dos leitores, seria abraçada por eles".


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