burburinho

o testamento

livros por Jade Boneff

John Grisham é um daqueles autores fiéis a seu campo de atuação. Ex-advogado, Grisham construiu a carreira de escritor em cima de suspenses de tribunal ou qualquer outra trama que envolva artimanhas legais. Seu romance O Testamento (The Testament), de 1999, chegou às livrarias norte-americanas já como bestseller, e com Hollywood de olho nos direitos para uma adaptação cinematográfica.

O toque original para os leitores brasileiros fica por conta do fato de que grande parte da trama é passada no Pantanal, uma região que Grisham visitou duas vezes e obviamente adorou. Sua opinião, expressa através do personagem Nate O'Riley, é a de que o maior pântano do planeta é o melhor exemplo de terceiro mundo que se pode arranjar - malária, dengue, hospitais tenebrosos, jeitinho brasileiro e preguiça generalizada. Está tudo ali.

A história em si é bastante interessante - um bilionário americano suicida-se logo depois de assinar um testamento deserdando toda a família sanguessuga e deixando uma fortuna de onze bilhões de dólares para uma filha ilegítima que ninguém conhece. No meio do previsível arranca-rabo entre os herdeiros e o guardião do dinheiro, há também o problema de se encontrar a tal filha ilegítima.

Para complicar, a moça é uma missionária levando a palavra de Cristo aos índios do Pantanal, está em local incerto e não sabido, não quer saber de dinheiro e muito menos pretende voltar aos EUA para enfrentar a batalha nos tribunais. Nate O'Riley é o pobre coitado, alcóolatra e ex-viciado em drogas que tem a missão de encontrá-la.

Pobre coitado por mais de um motivo. Primeiro, o fato de se ver do lado de fora da clínica de recuperação é o primeiro passo para (mais) uma temporada com a garrafa. Segundo, ele acaba de ser enviado para onde Judas perdeu as botas, não fala português, se perde no Pantanal, pega dengue e se apaixona pela missionária. Nada mal para algumas semanas de trabalho. Mas não é só isto. De volta ao lar doce lar ele tem à sua espera o temido IRS (a receita federal americana), que está acenando com alguns muitos anos de cadeia por conta de sonegação fiscal, perdeu a casa, seus filhos lhe viraram as costas, e ele está prestes a perder a licença de advogado.

As desgraças pessoais de O'Riley poderiam ser apenas o pano de fundo, mas são na verdade o que salva o livro. Um personagem assim tão humano, tão anti-herói, não deixa de despertar simpatia, e salva o leitor de tediosas páginas de referência jurídica. Grisham é um mestre nesta arte - a baboseira legal está lá, mas muito bem camuflada, e o livro é agradável como qualquer romance leigo.


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