burburinho

firefly e serenity

cinema televisão por Nemo Nox

Século XXVI. Os humanos, capazes de viagens interestelares e com a Terra superpopulada, partem para a colonização de outro sistema planetário. São dúzias de planetas e centenas de satélites por onde se espalha a nova civilização. Um núcleo central, rico e maioritário, se organiza e passa a comandar todas as colônias sob um único governo, chamado de Aliança. Os habitantes das colônias periféricas, minorias mais pobres, preferem menos interferência e estão dispostos a iniciar uma guerra civil espacial para defender sua independência. Com poucos recursos, porém, os browncoats (casacos castanhos, como são chamados) perdem a disputa e são forçados a se submeter à Aliança. Esta história poderia facilmente servir de enredo para um livro ou um filme, mas seu autor, Joss Whedon, usou tudo isto somente como referência histórica e ponto de partida para sua série de televisão Firefly, de 2002, e o longa-metragem subseqüente Serenity, de 2005.

Joss Whedon já era um autor popular graças às suas séries anteriores Buffy the Vampire Slayer (de 1997 a 2003) e Angel (de 1999 a 2004). Mas Firefly não conseguiu instantaneamente o sucesso de público esperado pela rede de televisão Fox, e foi cancelada prematuramente depois de apenas onze episódios. Os fãs, revoltados, começaram a fazer barulho, enviando cartas de apoio e criando websites de protesto. Foi o suficiente para que a Universal Studios resolvesse apostar num longa-metragem. Serenity reuniu o mesmo elenco e grande parte da equipe de Firefly numa história que dá continuidade ao universo futurista de Whedon. Mais uma vez, para o padrão corporativo, o sucesso de público ficou aquém do esperado (o retorno nas bilheterias foi apenas o suficiente para cobrir as despesas de produção, e o lucro virá somente da venda de dvds). Para os fãs, porém, isso não importa, e Firefly e Serenity continuam a ter uma pequena legião de aficcionados sempre dispostos a louvar seus méritos.

O núcleo central de personagens habita uma nave espacial do tipo Firefly chamada Serenity (estão explicados os títulos da série e do filme). Malcolm "Mal" Reynolds (interpretado por Nathan Fillion) é o capitão. Ele lutou na Guerra de Unificação ao lado dos rebeldes, e depois da derrota da sua facção dedica-se à nobre arte do contrabando, com eventuais incursões à não menos nobre arte do latrocínio. É a sua forma de se recusar a integrar-se comportadamente ao mundo da Aliança. Zoë Washburne (Gina Torres), que lutou ao lado de Malcolm na guerra, é seu braço direito. Hoban "Wash" Washburne (Alan Tudyk) é o piloto da nave e o marido de Zoe. Jayne Cobb (Adam Baldwin, que apesar do sobrenome não é um dos famosos irmãos Baldwin e lembra mais a fisionomia de Ben Affleck) é o típico mercenário sem escrúpulos, especialista em armas e interessado principalmente em garantir a sua parte nos lucros do bando. Kay Lee Frye (Jewel Staite) é a mecânica da nave, bonitinha mas sempre suja de graxa. Eventualmente Mal também faz transporte de passageiros em sua nave, e alguns deles acabam ficando a bordo mais tempo e se tornando parte fundamental da história: Derrial Book (Ron Glass) é um religioso de passado obscuro; Inara Serra (Morena Baccarin) é uma prostituta de luxo (profissão que se tornou respeitável no futuro criado por Whedon); River Tam (Summer Glau) é uma menina com poderes paranormais que servia de cobaia para experimentos científicos da Aliança; Simon Tam (Sean Maher) é seu irmão, médico, que a ajudou a fugir.

Obviamente inspirado na guerra civil dos EUA, Serenity pode ser chamado de sci-fi western, com os planetas remotos do século XXVI substituindo o oeste remoto do século XIX. Em vez de cavalos e diligências temos naves espaciais, mas o sentimento de pioneirismo e distância dos grandes centros é o mesmo. A questão da escravidão aqui não existe, dando aos rebeldes um perfil mais nobre: só o que eles queriam era independência de um poder político central que não vêem atendendo seus interesses. Neste sentido, a história de Firefly e de Serenity pode ser considerada um manifesto contra o totalitarismo, já que seus heróis são os desprivilegiados que se rebelam contra um governo que se pretende todo-poderoso.

Outro tema sempre presente na série, e amplificado no filme, é o da convicção, seja em forma de fé religiosa (aqui o reverendo Book serve freqüentemente de ignição, gerando reações como esta de Mal: "Você é bem-vindo na minha nave, pastor. Mas deus não é.") ou de confiança no sistema (representado em Serenity pelo personagem sem nome interpretado por Chiwetel Ejiofor, "o agente", que acredita sem questionar). Não deixa de ser curiosa também a correspondência enviesada entre o bando de Robin Hood e o grupo de Mal. Uns roubavam dos ricos para dar aos pobres, outros roubam dos poderosos para benefício próprio. Robin tinha ao seu lado o fortão João Pequeno, o frade Tuck e a donzela Marian; Mal tem o bem-armado Jayne, o pastor Book e a prostituta Inara.

Ao contrário de outras séries famosas de ficção-científica, como Babylon 5 ou Farscape, no universo de Firefly e Serenity a única espécie inteligente é a nossa, nada de extraterrestres humanóides com máscaras e maquiagens estranhas, somente gente com cara de gente. Isso acentua ainda mais o contraste entre a estética da Aliança, com ambientes de limpeza high-tech que poderiam ter saído de Star Trek ou de Star Wars, e o visual sujo e desgrenhado dos Independentes, que estão mais perto dos vilões de spaghetti westerns. Para esses grupos, a turma do outro lado certamente parece alienígena.

Depois do cancelamento da série de televisão e da passagem discreta do longa-metragem pelos cinemas, Firefly e Serenity sobrevivem em dvd. Não é obrigatório assistir um para aproveitar o outro, mas é bem possível que depois de conhecer Mal e seus companheiros você não queira parar por aí e saia buscando também os quadrinhos (Serenity: Those Left Behind, mini-série em três revistas, se encaixa entre a série e o filme), os vídeos promocionais (R. Tam Sessions, cinco curtas-metragens lançados na internet como material promocional do filme), e até o jogo (Serenity Role-Playing Game, publicado por Margaret Weis Productions).


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