burburinho

o vampiro armand

livros por Jade Boneff

Muita gente se irritou com a loirice de Tom Cruise e até mesmo com as lamúrias de Brad Pitt na pele do vampiro Louis, no filme Entrevista com o Vampiro, de Neil Jordan. Mas não houve protestos com a entrada em cena de Antonio Banderas, lá pelo meio da história. Também pouca gente ousou comparar a figura máscula e sedutora com o personagem original do livro de Anne Rice. Verdade seja dita, a autora estava tão ocupada em combater a escolha de Tom Cruise para personificar Lestat, que não deu a mínima para Banderas no papel de Armand. O que seria uma rodada de baiana muito mais justificada, uma vez que a descrição de Armand inclui "rosto de querubim", "garoto", "corpo frágil" e outros adjetivos que dificilmente alguém encaixaria no caliente Banderas.

Em 1998, Armand ganhou mais espaço no universo ficcional de Anne Rice. Três anos depois de seu último livro pertencente às Crônicas Vampirescas, Memnoch The Devil, ela voltou ao tema com Pandora, seu primeiro resgate de personagens secundários (Pandora foi apresentada vagamente dez anos antes no livro A Rainha dos Condenados). Logo em seguida, foi a vez de The Vampire Armand, que elevou o protagonista ao mesmo nível de Louis e Lestat, seus vampiros mais badalados.

Desde sua primeira aparição em Entrevista com o Vampiro, Armand não tinha merecido grandes elaborações por parte da autora, ou arroubos de público (a não ser no escurinho do cinema, crédito do sex symbol Banderas). Com este livro, Anne Rice faz justiça a um personagem muito mais complexo e interessante do que o choramingas Louis e, em alguns aspectos, até do que o controvertido Lestat. Isto se deve, em grande parte, à idade de Armand.

Nascido em Kiev, dotado de um fantástico talento para as artes, o garoto Andrei acaba prisioneiro dos tártaros e é vendido como escravo. Depois de comer o pão que o diabo amassou, é comprado por Marius, um poderoso mecenas e artista italiano. Para os fãs de Anne Rice, Marius não guarda surpresas - parte de sua história de milênios já foi contada em O Vampiro Lestat.

Na Veneza renascentista, o talento de Andrei - agora chamado Amadeo - floresce, juntamente com a descoberta do luxo e dos prazeres (em homossexualidade sutilmente apresentada). Quando Amadeo está às portas da morte por envenenamento, o amor de Marius leva diretamente à sua transformação. Como vampiro, Amadeo renasce.

A separação entre o garoto e seu mestre é trágica e leva Amadeo à Paris do século dezenove. Acreditando que Marius está morto, o agora chamado Armand se envolve com a decadente sociedade vampírica local, tornando-se mais tarde o amargo e cínico líder do Teatro dos Vampiros. É também em Paris que Armand conhece Lestat, com quem manterá relacionamento de amor e ódio.

Anne Rice aproveita-se da oportunidade para dar dicas do paradeiro de Lestat na atual Nova Orleans, o que sugere que a autora ainda não tinha desitido de retomar as aventuras de seu personagem mais famoso. Mas The Vampire Armand também a redime pelas baboseiras de Memnoch The Devil, rejeitado até por seus fãs mais ardentes. Sabiamente, ela deixou de lado o delírio religioso para concentrar-se no fascinante universo vampírico. Depois de mandar Lestat em peregrinação turística pelo Céu e Inferno, só podia mesmo melhorar.


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