burburinho

dark star, o primeiro clássico de john carpenter

cinema por Marcus Vinicius Garrett Chiado

É incrível como o baixo orçamento pode ser, quase sempre, sinônimo de criatividade. Sam Raimi, célebre diretor de Homem-Aranha e de Homem-Aranha 2, é prova absolutamente viva desta máxima, afinal, inaugurou a batuta com seu ótimo A Morte do Demônio, tradução errônea do título original Evil Dead. Outro dos notórios diretores criativos, John Carpenter, fez seu primeiro longa-metragem ainda na época da faculdade, Dark Star.

Dark Star (sem título oficial em português), foi co-escrito por Carpenter e por Dan´O Bannon, que futuramente daria ao mundo do cinema os roteiros de Alien: O Oitavo Passageiro, Força Sinistra, Vingador do Futuro e A Volta dos Mortos Vivos, e criaria séries de tv como Trovão Azul, um marco dos anos oitenta. No enredo, os tripulantes da nave espacial Dark Star (Estrela Escura), tenente Doolittle (Brian Narelle), Boiler (Cal Kuniholm), Talby (Dre Pahich), sargento Pinback (O´Bannon em pessoa) e o falecido Comandante Powell (Joe Saunders), perambulam pelo cosmo, há vinte anos, numa missão especial: destruir planetas instáveis; ameaças, de alguma forma, à colonização espacial da metade do século XXI.

Detalhe: misturam-se, todo o tempo, ficção-científica, suspense e, principalmente, humor. Mostra-se o dia-a-dia dos tripulantes e como estes começam a perder o juízo após tanto tempo no espaço: a saudade de casa, a solidão, os medos e as frustrações que afloram, e até mesmo o puro nonsense (apertam-se os botões dos painéis alucinadamente). Imagine, caro leitor, um longa-metragem em que uma bola de praia "maquiada" atua como alienígena, em que o comandante morto - e congelado em zero grau absoluto - ainda passa instruções aos subordinados, em que bombas termonucleares têm consciência própria, além de outras surpresinhas. Porém, o ápice da coisa acontece, bem ao término da película, com uma discussão existencial - de fenomenologia - entre homem e máquina. Hilário? Cerebral? Nonsense? Você decide.

Calma! Não faça mau juízo desta pérola B de 1974, pois o filme foi dirigido e produzido com muita criatividade, apesar do ritmo um tanto arrastado em algumas partes. Os efeitos especiais são até bem-feitinhos se levada em conta a falta absoluta de dinheiro. E pode-se, ainda, apreciá-la como o primeiro grande trabalho de John Carpenter, que anos depois dirigiria produções deliciosas como Starman, Fuga de Nova York, Eles Vivem, O Enigma de Outro Mundo e Aventureiros do Bairro Proibido. Na verdade, o projeto ficaria perdido, no esquecimento, não fosse descoberto por um produtor de Hollywood, Jack Harris, que, impressionado, pediu à equipe que adicionasse quinze minutos ao filme para que fosse lançado oficialmente nos cinemas, fato que ocorreu um ano depois.

Dark Star saiu, após longos anos em que esteve apenas disponível em VHS e em sessões esquecidas de tv, em dvd: uma edição caprichada em widescreen, restaurada (apesar de manchas e riscos oriundos da película original, judiada pelo tempo) e com som - pasmem! - Dolby Digital 5.1. Há, na verdade, duas versões no disco: a original e a especial, feita a pedido do tal produtor. Como extras há apenas o trailer de cinema e as biografias/filmografias de poucos membros da parte técnica. Infelizmente, inexistem legendas em português ou mesmo em inglês. O preço, bem acessível, convida o colecionador ou o amante de dvds a adquiri-lo por módicos 9,99 dólares na loja Amazon. Uma pechincha para um filme que foi indicado aos prêmios Hugo e Nebula em 1976.


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