burburinho

embustes no rock inglês

música por Nemo Nox

O mundo do rock'n'roll é rico em histórias fantasiosas, talvez a mais famosa delas sendo sobre Elvis Presley, que segundo a lenda alimentada por tablóides sensacionalistas e fãs fanáticos não teria realmente morrido em 1977 e ainda estaria entre nós. Mas antes disso outras mentiras artificiosas envolvendo ídolos do rock também ganharam fôlego e rodaram o mundo, particularmente as que envolviam bandas inglesas.

The Dark Side of the Rainbow

Em 1973, a banda inglesa Pink Floyd lançou o álbum The Dark Side of the Moon, que se tornaria um clássico do gênero e um dos discos mais vendidos de todos os tempos. Por alguma razão obscura, alguém resolveu ouvir The Dark Side of the Moon enquanto assistia o filme The Wizard of Oz, dirigido por Victor Fleming em 1939, e se maravilhou com alguns momentos de sincronia entre os acontecimentos da história e as letras das músicas. Nasceu assim o mito de The Dark Side of the Rainbow, a idéia de que o álbum do Pink Floyd teria sido concebido e cronometrado para servir de trilha sonora alternativa para O Mágico de Oz.

Uma legião de fãs se reuniu na tarefa de sincronizar fitas vhs com discos de vinil, e mais tarde dvds com cds, para buscar qualquer tipo de conexão entre as músicas do Pink Floyd com a história criada por L. Frank Baum. Por exemplo, a quarta faixa do álbum, Time, inicia com ruidos de sinos no momento em que a vizinha Mrs. Gulch aparece em sua bicicleta, dando a impressão que poderia ser o barulho da buzina. Em seguida, Dorothy foge de casa em busca do seu cãozinho enquanto a letra diz "no one told you when to run" ("ninguém lhe disse quando fugir"). E, combinando com o título da música, ela encontra uma placa marcada "passado, presente, futuro".

Existem realmente várias coincidências, algumas curiosas (como por exemplo a canção Brain Damage surgir no momento em que no filme o Espantalho canta If I Only Had a Brain), outras um bocado forçadas (como por exemplo o trocadilho que seria o trecho "and who knows which is which" da música Us and Them no momento em que as duas bruxas se enfrentam). Mas o que os defensores da teoria do sincronismo, voluntário ou não, entre o álbum e o filme nunca mencionam é a enorme quantidade de passagens de The Wizard of Oz sem qualquer relação com The Dark Side of the Moon, e vice-versa.

Stairway to Hell

Em 1971, o quarto álbum da banda inglesa Led Zepellin trazia uma canção chamada Stairway to Heaven, enorme sucesso e até hoje uma das músicas mais pedidas em rádios de todo o mundo. Por alguma razão obscura, alguém resolveu ouvir o disco de trás para frente, com o prato girando ao contrário, e alegou ter ouvido mensagens satânicas escondidas na letra, começando com "Here's to my sweet Satan..."

Vários fanáticos religiosos aproveitaram a ocasião para mais uma investida contra o rock'n'roll (apesar da canção em questão ser uma balada) e passaram a estudar zelosamente as mensagens que estariam ali disponíveis só para quem rodasse o disco ao contrário. Alegaram ter encontrado estrofes inteiras dedicadas a exaltar Satanás, mas pouca gente é capaz de distingüir qualquer palavra inteligível com o vinil rodando de trás para frente. Robert Plant, vocalista do Led Zepellin, sempre foi veemente ao negar a história: "Mensagens secretas em fitas ao contrário não são a minha idéia de como fazer música." A gravadora da banda, Swan Song Records, também divulgou um desmentido oficial: "Nossos toca-discos só rodam numa direção, para frente."

Paul is Dead

Em 1969, a banda inglesa The Beatles lançou seu penúltimo álbum, Abbey Road (na verdade o último a ser gravado, depois de Let It Be, gravado antes mas só publicado no ano seguinte). Por alguma razão obscura, alguém resolveu espalhar o boato que Paul McCartney, um dos membros da banda, tinha morrido em 1966 e sido substituído por um sósia. Um artigo no jornal Michigan Daily, McCartney Dead; New Evidence Brought to Light, explorou a idéia e listou uma série de pistas escondidas no disco que confirmariam a morte do Beatle. A partir daí, ficou aberta a temporada de caça aos indícios de que a banda abrigava um impostor.

Com a capa cheia de detalhes gráficos, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band foi o álbum mais fértil em possíveis pistas, das roupas dos músicos (Paul é o único a vestir uma cor fria, azul, enquanto os outros estão de amarelo, rosa e vermelho) à guitarra com uma corda a menos (representando o integrante que faltava). Na contra-capa, Paul de costas também era sugestivo. A foto famosa de Abbey Road ganhou sua interpretação simbolista: os quatro atravessando a rua representava uma procissão fúnebre, com John Lennon à frente, de branco, como padre, seguido de Ringo Starr, de terno preto, como carregador de caixão, então o próprio Paul como defunto, descalço e de olhos fechados, e George Harrison fechando a fila com os jeans de coveiro.

Os caçadores de conspirações também encontraram evidências nas letras das canções, e juntando pedaços de todos os lados montaram uma história elaborada para a morte de McCartney. Ele teria se distraído ao volante do seu carro ("he didn't notice that the lights had changed", em A Day in the Life), batido num poste (há um ruído de acidente em Revolution 9), e morrido numa quarta-feira ("Wednesday morning at 5 o'clock as the day begins", em She's Leaving Home). Ouvindo as faixas de trás para frente, há também quem afirme encontrar mensagens como "Paul is dead, Paul is dead..." (o cântico final em I Am The Walrus) ou ""turn me on, dead man, turn me on, dead man" (em Revolution 9).

O fato de Paul McCartney ter continuado sua carreira musical por décadas depois da sua alegada morte não parece desestimular os defensores da teoria que se trata na verdade de um sósia do Beatle. E, curiosamente, muitos deles são os mesmos a afirmar que Elvis não morreu.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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