burburinho

monteiro lobato - parte 5

livros por Gian Danton

Não seria fácil dar petróleo ao Brasil. Para começo, não havia qualquer apoio governamental. Pelo contrário. Dizia-se e redizia-se que no Brasil não havia petróleo. Se houvesse algum, os americanos, espertos que eram, já o teriam descoberto, argumentavam. Monteiro Lobato pensava diferente. Se quase todos os países com os quais temos fronteira retiravam petróleo, porque o Brasil, e só o Brasil teria sido boicotado pela natureza?

Havia, inclusive, evidências. No início do século um geólogo dinamarquês descia um rio do Mato Grosso quando observou na água um óleo que alcançava a água através de um barranco. Foi acompanhando o rastro e encontrou um olheiro que soltava óleo em grande quantidade: até seiscentos litros por dia! Era petróleo. E dos melhores. O dinarmaquês recolheu o óleo, analisou e correu para o Rio de Janeiro para pedir licença para exploração. Estranhamente, o governo se recusou a dar a licença.

Em 1918 um sábio alemão chamado Bach foi parar em Alagoas. Achou que a região poderia ter petróleo e fez estudos. "Aqui há petróleo para abastecer o mundo", concluiu. E formou uma empresa para explorar a mina. Súbito morreu. Quando atravessava uma lagoa com um canoeiro que não era o habittual, a canoa virou. Lá se foi o sábio para o fundo, enquanto canoeiro nadava tranquilamente para a margem...

Mesmo com essas estranhices, Lobato inventou de formar uma empresa exploradora de petróleo. Com o dinheiro do petróleo entraria de sola no projeto de fabricar aço por um novo processo mais econômico e ecológico. Lobato começou a escrever em jornais, divulgando o petróleo brasileiro, e os acionistas começaram a aparecer.

Certa vez foi ao escritório um homem visivelmente pobre. O que não era de se admirar, já que a maioria dos acionistas era composta de gente humilde, que tinha o sonho de enriquecer. O susto veio quando o homem depositou na mesa uma grande quantia em dinheiro. Lobato piscou trinta vezes.

- Mas, mas... gaguejou Lobato. Todo esse dinheiro...
- São minhas economias. Guardei durante anos.

O escritor, passado o susto, caiu um si. Onde já se viu, investir as economias de uma vida, todo o dinheiro, numa empreitada arriscada que podia dar em nada? Lobato disse isso ao futuro acionista.

- Sei, sei de tudo. - respondeu ele. Estou investindo porque acredito que assim posso ajudar o Brasil.

Lobato abaixou-se para pegar uma caneta que, de fato não tinha caído e, assim escondido, tratou de enxugar uma aguinhas que insistiam em cair-lhe dos olhos.

Começaram as escavações e com elas os problemas. Surgiram mais e mais dificuldades jurídicas, a maior parte delas provocada pelos órgãos do governo que deveria incentivar a descoberta de petróleo. Um amigo de Lobato, que também estava engajado na campanha pelo petróleo, foi misteriosamente assassinado.

Lobato escreveu uma carta ao presidente Getúlio Vargas denunciando as sabotagens do Conselho Nacional de Petróleo e sugerindo uma ação decisiva do governo em favor do petróleo nacional. O que conseguiu com isso? Ser preso por injúria ao presidente. Como o escritor havia pedido passaporte para tratar da publicação de seus livros na Argentina, o militar que dirigia o Conselho Nacional de Petróleo concluiu que ele pretendia fugir e, com esse argumento, mandou prendê-lo até o julgamento. Outra acusação era de que a companhia de Lobato era patrocinada por organizações internacionais. Como prova anexaram ao processo duas cartas de estrangeiros. Uma era de um engenheiro uruguaio que felicitava o escritor pelo lançamento do livro O Poço do Visconde. Outra era um cartão de natal assinado por um tal de Merry Christmas (Feliz Natal), o que demonstra a burrice dos militares.

Lobato ficou seis meses na prisão, junto com assassinos e ladrões. Quando saiu, escreveu uma carta ao general Goes Monteiro (que mandara prendê-lo) agradecendo pela estadia: "É profundamente reconhecido que venho agradecer V. Excia. o grande presente que me fez, por intermédio do augusto Tribunal de Segurança, de uns tantos deliciosos e inesquecíveis dias passados na Casa de Detenção desta cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão dessa ordem, durante a qual eu ficasse forçadamente a sós comigo mesmo e pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin (Uma Pequena Introdução para a História da Estupidez Humana)."

Mas, afinal, qual era esse mistério todo que envolvia o petróleo brasileiro? Por que todos que se envolviam com o assunto eram misteriosamente "acidentados", "suicidados", ou iam passar uns tempos na prisão? Por que os poços eram sistematicamente boicotados, quando não sabotados pelas entidades governamentais que deveriam apoiá-los?

Lobato descobriu a resposta quando um amigo seu foi ao Rio de Janeiro visitar as companhias de petróleo cariocas. Procurando, deu com o endereço de uma companhia desconhecida. Era uma distribuidora de gasolina da Standard Oil. Quem o recebeu foi um diretor, que se alegrou em encontrar alguém das companhias brasileiras, para os quais precisava contar umas verdades:

- Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional da Standard. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. Contra a vontade da Standard país nenhum tira petróleo que haja em suas terras.

Contou também que os melhores campos petrolíferos já estavam sendo estudados e comprados pela Standard. Na época os EUA era um dos principais produtores mundiais de petróleo e o Brasil um grande comprador. Não interessava, portanto, que o petróleo brasileiro fosse descoberto. Era mais negócio ir comprando as terras e esperar até que o petróleo americano acabasse para começar a tirá-lo do Brasil. Todos os principais funcionários do Conselho Nacional de Petróleo recebiam soldo da Standard para evitar que o Brasil descobrisse seu petróleo.

Com isso, até Lobato desistiu. Estava desconsolado, triste com a vida. Para esquecer, traduzia: "A tradução é minha pinga. Traduzo como o bêbedo bebe: para esquecer, para atordoar. Enquanto traduzo, não penso na sabotagem do petróleo."

O motivo para continuar vivendo, encontrou-o nas crianças. "Ah, Rangel, que mundos diferentes, o do adulto e o da criança! Por não compreender isso e considerar a criança como 'um adulto em ponto pequeno' é que tantos escritores fracassam na literatura infantil e um Andersen fica eterno", escreveu ele ao amigo.

Surgia a saga do Sítio do Pica-Pau Amarelo.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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