burburinho

o americano tranqüilo

cinema por Nemo Nox

Em 1955, Graham Greene publicou um de seus melhores livros, The Quiet American (O Americano Tranqüilo). Ambientado no Vietnam do início dos anos cinqüenta, conta a história de um triângulo amoroso envolvendo o jornalista inglês Thomas Fowler, a dançarina vietnamita Phuong e o agente dos EUA Alden Pyle. Por trás da trama romântica, há uma intriga política e um conflito armado envolvendo os franceses colonialistas, os vietnamitas comunistas e os norte-americanos aparentemente neutros mas agindo secretamente nos bastidores, num cenário que levaria, alguns anos depois, à famosa Guerra do Vietnam.

Não demorou muito para que The Quiet American fosse adaptado para o cinema, e em 1958, já com a Guerra do Vietnam em andamento, acontecia a estréia do filme homônimo de Joseph L. Mankiewicz (de A Letter to Three Wives e All About Eve), com Michael Redgrave como Fowler, Audie Murphy como Pyle, e Giorgia Moll como Phuong. Mas o roteiro, também de Mankiewicz, não era fiel ao livro original, centrava-se demasiadamente na parte romântica, colocava os comunistas como bandidos e livrava a cara do americano do título, não por acaso interpretado por um herói nacional e soldado condecorado da Segunda Guerra Mundial (Murphy recebeu mais de trinta medalhas, entre elas a cobiçada Congressional). Propaganda descarada contra o comunismo e a favor da invasão norte-americana, tão preocupada em retratar com precisão o Vietnam que tinha uma italiana no papel de Phuong.

Somente em 2002 The Quiet American se transformou num filme fiel ao livro, com direção do australiano Phillip Noyce (de Patriot Games e The Bone Collector), com Michael Caine como Fowler, Brendan Fraser como Pyle, e Do Thi Hai Yen como Phuong. Desta vez os eventos são mostrados como Greene narrou, com os EUA apoiando a criação de uma terceira coluna que combatesse tanto os franceses colonialistas como os revolucionários comunistas, e principalmente com a bomba que explode no fim da história sendo de responsabilidade americana.

Com a trama contada da forma que Graham Greene a escreveu, o triângulo amoroso passa a representar bem mais que um simples triângulo amoroso, acrescentando mais uma camada interpretativa à história: Fowler, o velho inglês, funciona como metáfora para o decadente imperialismo europeu, mantendo uma "relação imprópria" com a nativa Phuong, que por sua vez é cobiçada e descaradamente cortejada pelo jovem americano, que se apresenta como herói altruísta mas não passa de um arrogante colonialista dos novos tempos.

Graham Greene foi acusado de anti-americanismo por The Quiet American, mas grande parte do que colocou no livro veio de sua própria experiência nos anos que viveu no Vietnam, dando-lhe uma visão privilegiada (e quase premonitória) naquele momento histórico. E para quem cobrou do velho escritor inglês uma posição neutra num conflito envolvendo vietnamitas, franceses e americanos, a resposta está no próprio livro: "Mais cedo ou mais tarde, temos que escolher um lado. Se quisermos permanecer humanos."


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