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monteiro lobato - parte 2

livros por Gian Danton

Em 1917, Lobato, já formado, é nomeado promotor público da cidade de Areias, no interior paulista. Areias era o que o autor mais tarde chamaria de Cidades Mortas. Vítimas das mudanças econômicas, esses lugarejos, antes prósperos, viviam em estado de lesmice patológica. Com a economia local quebrada, a maior parte dos jovens se mudara para cidades mais desenvolvidas e só ficava em Areias quem não tinha condições ou idade para a mudança.

Numa cidade como essa, até o passeio matutino do recém-nomeado promotor público virava atração pública. As moças saiam na janela para ver Lobato passar. Naquela época Lobato já namorava sua futura esposa, Maria da Pureza Natividade. Ia de vez em quando a São Paulo para vê-la. As cartas escritas para ela revelam gripes, caçadas a onças, uma ou outra refrega entre vizinhos e muita saudade. Em suma, não havia o que fazer em Areias. Assim, Lobato gasta a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Vai passando para o papel o que observa no lugarejo. São esses escritos que mais tarde formarão o livro Cidades Mortas. Nos escritos, Areia é rebatizada de Oblivion, depois Itaoca.

Em Oblivion só meia dúzia de pessoas recebe jornais. São a intelectualidade local. Livros só há três, que passam de mão em mão. Cada um que pegava fazia questão de escrever algo. “Li e gostei”, afirmava um. Outro versificava: “Já foi lido - pelo Valfrido”. Cidades Mortas é cheio desses casos, entre eles o de um réu que escapou enquanto o júri permanecia horas reunido numa sala, incapaz de tomar uma decisão.

Velha Praga

Em 1911, com a morte do avô, Barão de Tremenbé, Lobato herda a fazenda Buquira, em Taubaté. Deixa de ser promotor para virar fazendeiro. Nessa época o escritor já tinha mulher e filhos. É lá na fazenda que Lobato iria recolher os causos e vivências que o levariam a produzir Urupês, sua obra mais completa. A falta do que fazer leva-o a escrever e reescrever os contos, só largando-os quando estão realmente em ponto de bala. Mas escreve pouco. Numa de suas cartas a Godofredo Rangel, chega a garantir que a vai largar a literatura par dedicar-se exclusivamente à pintura.

É também na fazenda que Lobato escreve o artigo que seria o pontapé inicial de sua carreira literária. Os caboclos tinham o costume de queimar a mata para fazer sua roça. O resultado eram grandes queimadas, que desgastavam a terra, tornando-a improdutiva em pouquíssimos anos. Lobato, que tinha conhecimento do mal que as queimadas provocavam, ficou uma onça. Injuriado, queria denunciá-los à polícia.

- Não vale a pena. - explicou o capataz. São eleitores do governo e o patrão não arranja nada.
- Não haverá ao menos um incendiário oposicionista que possa pagar o pato?
- Não vê? O caboclo é ali firme no governo justamente por amor ao fogo.

Sem ter o que fazer, o fazendeiro mandou uma carta para a seção de queixas e reclamações d’O Estado de São Paulo. O jornal gostou tanto do artigo que resolveu publicá-lo fora da seção, com o título Velha Praga. O texto mostrava um jeca vadio, de pé no chão, incapaz de fazer qualquer coisa para melhorar sua situação, entretendo-se em queimar as florestas. Lobato mais tarde se arrependeria desse tratamento dado ao Jeca. Mas na época o artigo explodiu como uma bomba na imprensa nacional. Foi reproduzido em quase uma centena de jornais.

Lobato, até então um desconhecido, virou celebridade nacional. Passou a escrever artigos para o Estado e para outros jornais. Certa vez, quando foi ao médico, este o tratou de duas maneiras diversas. Primeiro frio e indiferente. Depois, quando soube que se tratava de Monteiro Lobato, abriu um sorriso: "Aquele que escreve belos artigos no Estado?"

Embora O Estado de São Paulo tivesse uma boa gama de leitores (a tiragem era de quarenta mil exemplares, razão pela qual Lobato acreditava ser lido por oitenta mil pessoas), ele, certa vez, deixou de colaborar com esse jornal para escrever para um pasquim, O Povo, de duzentos exemplares e cem leitores. Tudo isso porque havia um velhinho, leitor d’O Povo, que não perdia um artigo seu.

Nesse tempo que passa na fazenda, Lobato colabora com várias publicações, entre elas a Revista do Brasil. É nela que vão ser publicados alguns dos contos que mais tarde formariam o volume Urupês. Lobato oscila. Ora adora a vida de fazendeiro, ora reclama da inatividade. Era o pus do furúnculo literário. Pus, sim. Certa vez, quando um repórter perguntou-lhe como surgira seu primeiro livro, o escritor respondeu que lhe nascera um furúnculo que, uma vez espremido, dera no tal do Urupês.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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