burburinho

zathura

cinema por Marcus Vinicius Garrett Chiado

Se uma criança viajasse no tempo, de 1985 para 2006, e entrasse em uma sessão de Zathura - A Aventura Espacial (Zathura, EUA, 2005), dificilmente desconfiaria de que ali, bem à frente dela, estaria uma genuína produção do século XXI. Este fato, ou seja, a semelhança proposital com filmes como E.T. (1982), Viagem ao Mundo dos Sonhos (1985) e O Vôo do Navegador (1986) mostra-se o principal atrativo da nova película dirigida pelo ator, produtor e roteirista Jon Favreau (de Um Duende em Nova York), admirador confesso de Steven Spielberg e da "década perdida".

O enredo de Zathura é sobre os irmãos Danny (o engraçadinho Jonah Bobo), o caçula, e Walter (Josh Hutcherson), pré-adolescente, ambos filhos do personagem workaholic interpretado por Tim Robbins (de Um Sonho de Liberdade e Guerra dos Mundos), estranhamente creditado de maneira singela como "Pai". A recente separação dos pais, infelizmente, também azedou a relação entre os garotos, agora fragilizados, os quais freqüentemente provocam um ao outro a fim de chamar a atenção dos adultos. Cada qual quer ser o filho favorito: o que se destaca nos esportes, o mais inteligente, o mais imaginativo e assim por diante.

Em meio a uma das brigas rotineiras, Danny acaba preso no porão, escuro e poeirento, da velha residência do pai e se depara, sem querer, com a surrada caixa de um antigo jogo espacial, à corda e feito de lata, que dá título ao filme. Mais que prontamente, o pequeno, a despeito da confusão, escapa e mostra a "novidade" para o irmão, que, sob forte insistência, é convencido a jogar. A inusitada aventura, então, tem início: sozinhos e aos cuidados da desligada irmã adolescente, Lisa (Kristen Stewart, de Quarto do Pânico), os meninos descobrem que cada ação praticada na partida, tanto por um quanto por outro, afeta a realidade das coisas; atinge em cheio a casa em que estão, a qual acaba miraculosamente transportada ao espaço sideral. Uma chuva de meteoros, a perigosa proximidade gravitacional de uma estrela, o "acidente" de Lisa, o encontro com seres alienígenas (os Zorgons), o robô assustador que não funciona direito (dublado originalmente por Frank Oz, a voz de Mestre Yoda), a chegada do astronauta misterioso (Dax Shepard, da série Punk'd) e outras surpresinhas, compõem os acontecimentos baseados involuntariamente no desenrolar de cada rodada do velho jogo. Suspense, sustos, mistério, emoção e muita ação! E, claro, uma premissa extremamente semelhante à do filme Jumanji.

(No livro, Zathura é um jogo de tabuleiro como War ou Banco Imobiliário. No filme, porém, o diretor Jon Favreau o transformou em um brinquedo à corda, feito de lata e jogado com cartas, para que se parecesse com um jogo das décadas de 40 ou 50, fabricado antes da Corrida Espacial e durante a Era de Ouro da Ficção Científica. Existe também um jogo de tabuleiro real, lançado pela empresa norte-americana Pressman Toy, que é praticamente uma réplica do Zathura visto no filme e que pode ser jogado em dois, três ou quatro jogadores. Vêm na caixa itens como naves plásticas, um sistema ejetor de cartas, tabuleiro super colorido etc.)

Mas e agora? Continuar a jogar e chegar ao destino final, o planeta Zathura? Será que isto implicaria o fim do jogo? Será que, finalmente, poderiam regressar à Terra? Ou seria melhor bancar o covarde, deixar o estranho jogo de lado e permanecer preso no Cosmo para sempre? Eis a questão! Somente a união verdadeira de Danny e Walter parece ser a resposta.

O filme, baseado no livro homônimo do escritor americano Chris Van Allsburg, não por acaso o autor de Jumanji e também de O Expresso Polar, é propositadamente uma tentativa de resgate dos famosos "filmes de crianças" dos anos oitenta, produções em que os infantes saíam em aventuras alucinantes e maravilhosas, e dominavam a ação na maior parte do tempo, isto é, davam as cartas como os verdadeiros heróis. Esse resgate, contudo, não repousa tão somente no roteiro, de co-autoria do famoso David Koepp (de Jurassic Park, Quarto do Pânico e Homem-Aranha), mas na ambientação por ele proposta, realizada quase que exclusivamente em um único cenário, a casa, assim como calcada nos efeitos especiais "antiquados", mas eficazes. Favreau preferiu, para que se conseguissem atuações mais convincentes e naturais das crianças, utilizar basicamente efeitos óticos e cenográficos (o cenário principal foi construído sobre uma plataforma móvel e levadiça), deixando a computação gráfica como último recurso. Quando você vir, caro leitor, um enorme robô na tela, saiba que as crianças também o viram no set de filmagem e se assustaram de verdade.

Infelizmente, o longa parece sofrer de um problema crônico: foi "vendido" pela mídia como a continuação direta de Jumanji. Literariamente falando, tal afirmação procede, contudo, nos cinemas o último foi adaptado e concebido como um filme único, ou seja, ele goza de vida própria. Caso o público pense realmente em assistir a um Jumanji Parte II, fatalmente sairá da sala frustrado, desapontado. Zathura é, antes, um filme de e para crianças, e igualmente para pessoas que ainda consigam enxergar o mundo por meio das pequenas coisas, dos detalhes simples e sutis, mas especiais quando se encara a vida à baixa estatura. Não espere, portanto, por tramas complexas, reviravoltas a todo momento, explosões gratuitas, personagens multifacetados e planos dimensionais de realidades infinitas, mas prepare-se: embora razoavelmente previsível, o epílogo reserva uma grande surpresa.

Zathura proporciona uma história sobre o companheirismo, sobre o amor e a amizade no núcleo familiar, sobre a redescoberta de laços afetivos e amizades, e sobre redenções sinceras; temas revestidos de um caráter metalingüístico acerca da importância do imaginar, do fantasiar e do sonhar. E você, caro leitor? Será que ainda consegue?


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