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pseudônimos coletivos - parte 1

miscelânea por Nemo Nox

É comum uma figura pública usar um nome diferente do seu para assinar parte ou a totalidade de sua obra. O arquiteto Le Corbusier chamava-se na verdade Charles Édouard Jeanneret, o roqueiro Marilyn Manson tem como nome oficial Brian Warner, e a religiosa Teresa de Calcutá foi batizada originalmente como Agnes Gonxha Bojaxhiu. Entre escritores, mesmo os mais consagrados, o nom de plume também é comum. Stephen King publicou alguns livros como Richard Bachman, e Agatha Christie fez o mesmo como Mary Westmacott. Os exemplos são incontáveis. O que menos gente sabe é que existem também pseudônimos usados não por uma pessoa mas por várias, os pseudônimos coletivos.

Alan Smithee

Desde o final da década de sessenta, foram lançados vários filmes do diretor Allen Smithee. Por trás do nome, porém, esconde-se não um prolífico cineasta mas uma legião de diretores que por alguma razão não quiseram ver seu nome ligado ao filme que dirigiram. A história começou em Death of a Gunfighter, western de 1969 estrelado por Richard Widmark. A pedido do ator, o diretor Robert Totten foi substituído no meio das filmagens por Don Siegel. Com o filme pronto, nenhum dos dois quis ser creditado como responsável, e a associação profissional dos diretores (DGA: Directors Guild of America) resolveu o problema criando o pseudônimo Allen Smithee. Desde então vários diretores tiraram seus nomes de filmes com os quais não estavam satisfeitos, substituindo-os por Allen Smithee ou por variantes como Alan Smithee ou Adam Smithee, entre eles John Frankenheimer (no telefilme Riviera, de 1987), Dennis Hopper (em Catchfire, de 1990) e Sam Raimi (no roteiro de The Nutt House, de 1992).

Um episódio irônico acabou colocando fim à prática de atribuir a Allen Smithee os filmes de diretores descontentes. Em 1997 Arthur Hiller dirigiu uma comédia chamada An Alan Smithee Film: Burn Hollywood Burn contando a história de um diretor que não podia usar esse truque por seu nome verdadeiro ser exatamente Alan Smithee. Por não ter chegado a um acordo com o produtor e roteirista Joe Eszterhas sobre como editar o filme, Hiller retirou-se do projeto e solicitou que seu nome fosse substituído por Alan Smithee. O pedido foi aceito pela DGA, mas serviu também para encerrar a carreira do pseudônimo, desacreditado por diversas acusações de golpe de marketing (um filme chamado An Alan Smithee Film e assinado por Alan Smithee não ajudou muito) e até colocado em questão nos tribunais (Tony Kaye, por exemplo, diretor de American History X, processou a DGA por não lhe ter permitido assinar o filme como Alan Smithee).

Walter Plinge

Se o cinema dos EUA tem Alan Smithee, o teatro da Grã-Bretanha tem seu correspondente Walter Plinge. Conta a lenda que, quando um ator londrino tinha que fazer mais de um papel mas não queria que seu nome aparecesse duas vezes no programa, homenageava um querido dono de pub, Walter Plinge, colocando seu nome como ator do segundo personagem. Aos poucos a prática foi se espalhando, e o pseudônimo passou a ser usado também para outras ocasiões, como quando os programas tinham que ser impressos antes que um ator fosse escolhido para determinado papel. O nome Walter Plinge apareceu em tantos programas do teatro inglês que acabou até sendo usado para batizar um personagem (sem qualquer surpresa, um empregado de teatro) do livro The Maskerade, do Terry Pratchett.

Nos EUA, os atores de teatro usavam o nome George Spelvin da mesma forma que os ingleses usavam Walter Plinge, e as atrizes adotavam o correspondente Georgina Spelvin, prática que vinha desde o século XIX. A brincadeira terminou no início dos anos setenta, quando a atriz Michelle Graham passou a usar este nome em seus filmes pornográficos, sendo o mais célebre deles The Devil in Miss Jones, de 1973.

Ellery Queen

Até hoje muita gente pensa que Ellery Queen era o nome de um escritor de histórias policiais. Na verdade, porém, os livros assinados por ele durante 42 anos saíram das mãos não de uma só pessoa mas dos primos Frederick Dannay (1905–1982) e Manfred B. Lee (1905–1971), ambos nascidos nos EUA. Para complicar um pouco mais a situação, Ellery Queen era não somente o autor dos livros mas também seu protagonista, um detetive intelectual.

Talvez o grande sucesso das histórias de Ellery Queen tenha sido resultado da fórmula de jogo adotada desde o primeiro livro, The Roman Hat Mystery, de 1929. Em determinado ponto da narrativa, o leitor era avisado que já tinha todas as pistas necessárias e convidado a resolver o mistério antes que o detetive o fizesse nas páginas seguintes. Ellery Queen acabou tornando-se protagonista de séries de rádio, cinema e televisão, e mais tarde outros autores escreveram suas aventuras por trás do mesmo pseudônimo, entre eles Theodore Sturgeon e Avram Davidson.


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