burburinho

shrek

cinema por Luis Gustavo Claumann

Em um pântano distante vive Shrek, um ogro solitário que vê, sem mais nem menos, sua vida ser invadida por uma série de personagens de contos de fada, como três ratos cegos, um grande e malvado lobo e ainda três porcos que não têm um lugar onde morar. Todos eles foram expulsos de seus lares pelo maligno Lorde Farquaad. Determinado a recuperar a tranqüilidade de antes, Shrek resolve encontrar Farquaad e com ele faz um acordo. Todos os personagens poderão retornar aos seus lares se ele e seu amigo Burro resgatarem uma bela princesa, que é prisioneira de um dragão.

Em meio ao agito, você se depara com o bom velhinho Gepetto livrando-se do Pinóquio por alguns trocados. Isso é só um exemplo de como os contos de fada são completamente aviltados, revirados, desrespeitados e avacalhados durante o filme. Por isso mesmo você gargalha o tempo inteiro. O ogro Shrek é uma espécie de anti-herói que usa toda a sua ironia, toda a sua inteligência, todo o seu mau humor para fazer rir. Sinal que alguma coisa melhorou nesse mundo esquisito que a gente vive. Com estes novos filmes infantis, quando um pai quiser explicar para seu filho de cinco anos que as coisas no mundo não são tão evidentes quanto parecem, o exemplo ficará mais fácil.

Mais além, há várias pequenas críticas e ironias sociais que se tornam evidentes no decorrer da produção. A identificação com Shrek - insensível, feio, mal amado, rejeitado etc. - sensibiliza a maioria dos espectadores exatamente porque ser ogro, em nossos dias, não é tarefa das mais difíceis. Está aí a rua para quem quiser verificar. Quase todos estão carrancudos, desesperançosos, fechados em si. Complicado é ser burro falante e carregar uma ingenuidade cheia de esperança e delicadeza. Isso assusta. Isso afronta os padrões. Isso mexe com as estruturas de um status quo que não é mais o político ou o econômico (somente!) mas é também um estado de permanente carranquice assumida para enfrentar o dia-a-dia.

Felizmente, o cotidiano pode mostrar o contrário. Para enfrentar a dureza cotidiana nada melhor do que uma dose excessiva de palavras dóceis. Não melosas, palavras dóceis (diferença sutil!). Para derrubar os grandes dragões que nos atormentam, um pouco de delicadeza. Belíssima sacada da dragoa, que prendia a princesa, se apaixonar pelo burro. Era o início de uma relação equilibradora e foi desse modo que o burro conquistou a sua própria salvação.

Ainda temos a Princesa Fiona. Desde o primeiro momento em que aparece, ela já tenta se encaixar no padrão "princesa" - ela fazendo que está dormindo, com o biquinho pra ser beijada é o máximo! Sabemos que ela é uma mulher independente, está evidente na cena que remete ao filme The Matrix. Ela é forte, mas ao mesmo tempo carente, quer encontrar o amor e então tem que aparentar a delicadeza. Ou seja, é o estereótipo da mulher dos dias de hoje, não? Sonha com o princípe, lindo, loiro, alto, de olhos azuis, rico, montado num cavalo branco, mas deseja ao mesmo tempo mostrar o seu valor num mundo que até algum tempo atrás era exclusivamente masculino. Mas a partir do momento que conhece o Shrek, isso já não importa mais.

Começam as dúvidas que atormentam qualquer mulher dos nossos tempos contemporâneos. Mas e se ele só estiver interessado na minha beleza? E se descobrir o outro lado? Surge o mal-entendido e, uma vez mais, como quase toda mulher, a princesa resolve não demonstrar fraqueza. "Se eu me declarar apaixonada, vou ficar nas mãos dele, se ele não estiver a fim vai rir da minha cara, então vou fazer de conta que não estou nem aí." Este é o momento em que ela resolve casar com o lorde.

Finalmente, o final "e foram felizes para sempre", que pode ser comentado aqui sem maiores pudores, pois estamos falando de um conto de fadas. A partir do momento que ambos assumem o que sentem, e se assumem como são, eles podem ficar juntos. Nada muito diferente dos inúmeros relacionamentos que acontecem todos os dias. E tudo isso numa produção que ainda tem Village People na trilha sonora. Quer coisa melhor?


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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