burburinho

geração roubada

cinema por Ana Alice Colonetti

Geração Roubada (Rabbit-Proof Fence, Austrália, 2002), do diretor Phillip Noyce (mais conhecido por thrillers políticos como Patriot Games e Clear and Present Danger), mostra aos espectadores de cinema de todo o mundo o segredo mais vergonhoso da Austrália: o esquema do governo para seqüestrar crianças aborígines. O filme conta a história real de três meninas tiradas de suas famílias, sob uma ordem oficial da política que visava acabar com a herança cultural dos habitantes originais da Austrália. Muitos australianos ainda têm crises de consciência com a chamada Geração Roubada - dezenas de milhares de aborígines arrancados de seus lares, numa atividade que durou cerca de oito décadas, até os anos sessenta. Rabbit-Proof Fence (cerca à prova de coelhos, em tradução literal) revela esse lado sórdido do passado da Austrália.

A história das três meninas que caminharam quase 2.500 quilômetros pelo outback australiano (região árida e pouco habitada do país) está no livro Follow the Rabbit-Proof Fence, da escritora aborígine Doris Pilkington Garimara, que havia sido separada de sua mãe na infância, e só voltou a ver depois de 31 anos. O título vem da cerca que divide o país-continente de norte a sul, criada para proteger lavouras e pastos dos coelhos, e construída por operários temporários.

A mãe de Doris, Molly, fugiu de um assentamento do governo aos quatorze anos, acompanhada de sua irmã e de uma prima. Para voltar para casa, caminhou ao longo da cerca. Aos 24 anos, Molly foi seqüestrada novamente. Conseguiu mais uma vez fugir, mas só pôde levar uma filha consigo, Annabelle, deixando Doris para trás. Um ano depois, o governo tirou Annabelle de Molly, e as duas nunca mais se viram.

O filme, que custou cinco milhões de dólares, fez sucesso na Austrália, apesar da controvérsia. Políticos exigiram que a Miramax retirasse o cartaz promocional de circulação e pedisse desculpas pela frase da campanha: "O que aconteceria se o governo seqüestrasse sua filha?" Grupos defensores dos direitos humanos acham que o governo é quem deveria pedir desculpas pela Geração Perdida, pelo que consideram, na prática, um genocídio.


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