burburinho

o fabuloso destino de amelie poulain

cinema por Luis Gustavo Claumann

Após deixar a vida de subúrbio que levava com seu pai viúvo, Amélie Poulain (Audrey Tautou) muda-se para o bairro parisiense de Montmartre, onde começa a trabalhar como garçonete. Certo dia encontra uma caixa de brinquedos e objetos infantis escondida no banheiro de sua casa e, imaginando que pertencesse ao antigo morador, decide procurá-lo. É assim que encontra Dominique (Maurice Bénichou). Ao ver que ele chora de alegria ao reaver seus objetos, a moça fica impressionada e adquire uma nova visão do mundo. Então, a partir de pequenos gestos, ela passa a ajudar as pessoas que a rodeiam, vendo nisto um novo sentido para sua existência.

Produção francesa de 2001, dirigida por Jean-Pierre Jeunet, o filme trata de sonhos e da própria capacidade de sonhar. A arte brota de fatos absurdamente comuns e de absurdidades comunais. Amélie é o elo entre as várias personagens cotidianas, todas normais, porém loucas a sua maneira. Mais além, é um bom exercício para quem tem dificuldade de ver graça em tudo sem precisar cair em desgraça. E para quem não acredita em amor a primeira vista.

Outro personagem do filme, tão comum quanto os outros, mas talvez o mais importante de todos é o acaso. É de conhecimento geral que o acaso é um dos maiores atores da vida e, no entanto, poucos conseguem captar sua essência tão bem quanto Jeunet fez nesse filme. A primeira dica que o diretor dá sobre o acaso ocorre logo no início, quando um narrador comenta a inseminação do óvulo da mãe de Amélie pelo espermatozóide do pai, destacando bem que aquele é um entre milhões. Se fosse outro Amélie não teria nascido. E isso vale para todos nós.

A própria motivação para a mudança de Amélie é fruto do acaso. Se o leitor se permitir um pouco de imaginação, boa parte dos casais felizes costuma relatar o momento inicial de seus namoros como uma sucessão de fatos corriqueiros e divertidos que permitiram o acontecimento em si. Na verdade, muito em nossas vidas acontece bem por isso. Pelo acaso. O sentido dos fatos, este sim, é definido por nós, esta é a diferença entre o que passa em branco e que é importante.

Por essas e outras, a produção vai agradar aos loucos, aos sonhadores, aos que acreditam que tudo nessa vida pode ter mais sentido, aos que insistem na arte de perceber o essencial invísivel aos olhos. Quase que um Pequeno Príncipe da sétima arte, é uma película com a feliz capacidade de tornar mais leve quem a assiste. Essencial até para quem não gosta de cinema.


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