burburinho

um amor de borges

cinema por Luis Gustavo Claumann

Estela Canto e Jorge Luis Borges se encontraram em 1944. Estela trabalhava numa emissora de rádio, além de fazer traduções do inglês. Sua maior ambição, no entanto, era a de ser escritora. Borges, tímido, confuso em seus quebra-cabeças intelectuais e oprimido por uma mãe dominadora, trabalhava na Biblioteca Pública e ainda era pouco conhecido como escritor.

Inspirado no livro Borges a Contraluz, de Estela Canto, o filme, produção argentina de 1999 assinada pelo diretor Javier Torre, assume um ponto de vista neutro. O conservador e antiperonista Borges e sua namorada comunista e de espírito livre são personagens independentes, lutando contra as diferenças e a impossibilidade de continuar juntos. Borges, apesar de homem feito, ainda é totalmente dominado por sua mãe. Eles começam uma relação muito especial, apesar de Estela ser seu oposto. Jean-Pierre Noher interpreta o escritor argentino de forma esplêndida, promovendo em si mesmo uma verdadeira metamorfose. Estela ganha os contornos generosos da ex-modelo Inês Sastre. O par romântico fica mais interessante na pele dos dois.

Borges se apaixona mas, sem o apoio familiar, a relação termina cinco anos depois. O amor dos dois terminou em solidão e dor. Esse episódio marcou o início da carreira do escritor argentino. De certa forma, foi esse amor que, embora fracassado, permitiu a Borges desinibir-se um pouco e tornar-se o grande conferencista que foi.

A película é uma pequena obra-prima, delicada e sensível, sustentada pela interpretação comovente de Noher, que conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Cinema Latino de Biarritz. O filme foi exibido em competição no Festival de Gramado 2001, onde o intérprete de Borges também ganhou um prêmio especial. No Festival de Filme Hispânico de Miami, a produção levou ainda os prêmios de Melhor Diretor e, uma vez mais, Melhor Ator.


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