burburinho

infinite crisis

quadrinhos por Ricardo Bittencourt

Em 1985, a DC Comics publicou Crise nas Infinitas Terras, sacudindo o multiverso com um próposito muito nobre: tornar a continuidade mais simples, eliminando as terras paralelas existentes em seus quadrinhos, ao mesmo tempo que preservava como canônicas as melhores histórias de cada uma. Então a terra unificada tinha ao mesmo tempo a JSA e a JLA, o Jay Garrick e o Barry Allen, personagens clássicos e suas versões modernas.

Mas o imprevisto veio no ano seguinte à sua publicação. Em 1986, duas obras mudaram o cenário dos quadrinhos. Nesse ano, foram publicadas Watchmen do Alan Moore, e O Cavaleiro das Trevas do Frank Miller. As duas eram histórias espetaculares que renovavam o conceito de super-heróis, mostrando personagens mais sombrios e violentos. Ambas foram muito influentes sobre as gerações seguintes de escritores.

O problema é que foram influentes demais. Como as duas possuíam personagens sombrios e violentos, os escritores novatos achavam que isso era o que definia uma boa história de super-heróis. Não era. O apelo das histórias não era a atitude de seus personagens, mas a qualidade do argumento do Miller e do Moore. Com base na falsa premissa, proliferaram os anti-heróis, atingindo seu ápice na fundação da editora Image na década de noventa.

O efeito colateral disso é que as histórias da DC, após a Crise, eram em sua maioria crias dos escritores medíocres e fãs de anti-heróis. Com isso, a Terra pós-Crise ficou muito mais sombria e decadente que suas predecessoras. Essa era um Terra onde o Superman pode morrer, o Batman pode ficar paralítico, o Lanterna Verde pode se transformar num maluco assassino. Se um personagem pré-Crise visse essas coisas, ficaria envergonhado, e até mesmo revoltado. E essa é premissa básica de Infinite Crisis. No primeiro número, Kal-L, que havia sacrificado sua existência pra salvar a terra unificada, verifica que ela se tornou um pesadelo. Nesse segundo número, ele verifica que o problema é que a Terra pós-Crise foi baseada demais na Terra-1, cujos personagens se corromperam. Então, sua solução é reverter a Crise, de modo que a Terra pós-Crise não seja mais a Terra-1, mas sim a Terra-2, cujos heróis ainda não foram maculados pela onda dos anti-heróis.

A edição em si consegue ter exatamente o mesmo clima da Crise original, ao mesmo tempo épico e intimista. De fato, a primeira página começa com uma cena caseira, onde o Homem-Animal pergunta para a esposa por que ela jogou fora seu traje espacial. "Estava vazando óleo de foguete", numa cena que evoca de maneira perfeita o Homem-Animal do Grant Morrison, o gibi que melhor usou os temas da primeira Crise. E, na cena seguinte, Donna Troy convoca os heróis no espaço, da mesma maneira que o Monitor havia feito no original.

Os desenhos do Jimenez continuam espetaculares, com um nível de detalhe ainda maior que o do Perez. E, numa seqüência de flashback, o próprio Perez volta pra desenhar um punhado de páginas. Além disso, o Perez também fez uma das capas, onde várias cenas da história do multiverso são lembradas, incluindo três foguetes fugindo de Krypton: o foguete do Superman da Terra-1, da Terra-2, e da Terra pós-Crise.

Talvez o único problema de Infinite Crisis seja seu nível de referências. A série evoca acontecimentos de toda a cronologia da DC, o que significa que para apreciá-la completamente você precisa conhecer os setenta anos de gibis que a editora publicou. Para quem tem esse conhecimento, porém, a série é um deleite.


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