burburinho

jan garbarek

música por Luis Gustavo Claumann

Autodidata, nascido em 1947 na pequena cidade de Mysen, na Noruega, Jan Garbarek decidiu estudar saxofone depois de ouvir pelo rádio a transmissão de uma apresentação de John Coltrane, em 1961. No ano seguinte, seu talento já faturava o primeiro prêmio em um concurso de músicos amadores. Dado algum tempo, passou a liderar seus próprios conjuntos e trabalhou ao lado de George Russell, compositor e arranjador americano, quando este vivia na Escandinávia.

Nos anos setenta, Garbarek ganhou uma bolsa de estudos do governo norueguês para estudar jazz nos EUA e, no ano seguinte, já gravava com o selo com o qual trabalha até hoje, a cult ECM Records. Foi lá que trabalhou com nomes de peso como Keith Jarrett, Chick Corea, Ralph Towner e mais tarde explorou outros ritmos e melodias ao lado dos brasileiros Egberto Gismonti e Naná Vasconcellos.

No início dos anos oitenta, Garbarek começou a direcionar sua carreira para veredas menos jazzísticas, retornando até suas raízes ao gravar com músicos nórdicos. Em 1989, seu álbum com a cantora Agnes Buen Garnas, Rosensfole - Medieval Songs From Norway descobriu afinidades entre as canções e ritmos de sua terra natal e a produção africana, indiana e irlandesa. De certa forma, ainda preservando alguma influência de Coltrane, um dos primeiros ocidentais a abrir os ouvidos a tradições musicais não-ocidentais.

A primeira faixa, Innferd, é uma canção que remete à infância de Agnes. Quando criança, sua mãe Margjit cantava na hora de recolher o gado espalhado pelo pasto. A última faixa, Utferd, também servia para chamar o rebanho. Pode parecer música para boi dormir, pensará o leitor engraçadinho, mas é bem mais que isso. Nenhum boi poderia dormir com agudos capazes de superar qualquer coisa que nossa famosa Tetê Espíndola já tenha tentado. Agnes também conta a história de sua mãe que, prometida em casamento ao rico Targjei Risvollo, o recebe com um recém-nascido em cada braço, frutos de outra relação. Seguindo instruções de Margjit, Targjei se disfarça de mulher e leva os bebês a uma igreja, para que eles sejam batizados e enterrados em solo sagrado. Ele cumpre sua missão e vaga pelos campos cantando o refrão "det var mi og alli di, som jala her under lio" ("era meu e jamais seu o que soava aqui no vale"). Para acompanhar, a percussão é feita num pote de barro. A grandiosidade épica de Stolt Oli narra a vitória de uma bela moça sobre um gigante sobrenatural que se aproxima em meio à neve. Em Grisilla, a história de outra moça grávida, expulsa de casa pela mãe.

Depois de alguns anos sem lançamentos, para desespero de muitos, Jan Garbarek voltou em 2004 com um novo trabalho intitulado In Praise of Dreams. Gravado ao vivo, este disco apresenta Garbarek pilotando saxofones tenor e soprano, sintetizadores, samplers e percussões, na companhia de Kim Kashkashian (violino) e Manu Katché (bateria e percussões electrônicas). O conjunto agrada aos ouvidos mais exigentes, e também os menos treinados com as nuances do jazz. Por sinal, é comum encontrar estes álbuns nas seções de world music das casas especializadas, o que está longe de ser uma blasfêmia com Jan Garbarek. Apesar de até hoje ser considerado um dos responsáveis pela sedimentação do jazz europeu, Garbarek soube, como poucos, utilizar seu talento e os temperos não-ocidentais para criar círculos virtuosos de paz e serenidade.


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