burburinho

phantomzeit, tempo fantasma

miscelânea por Nemo Nox

Se alguém afirmasse que houve um erro na contagem dos anos e que na verdade quase três séculos da Idade Média nunca aconteceram, você acreditaria?

O alemão Heribert Illig é um dos principais defensores da teoria conhecida como Phantomzeit (Tempo Fantasma). Segundo ele, os anos de 614 a 911 nunca existiram, devendo-se a um erro no cálculo das datas ou a uma falsificação premeditada dos calendários. Esta idéia surgiu nos anos noventa e conta com vários proponentes, entre eles Hans-Ulrich Niemitz, autor do opúsculo Did the Early Middle Ages Really Exist?, segundo o qual "entre a Antiguidade (1 AD) e a Renascença (1500 AD), os historiadores contam com aproximadamente trezentos anos a mais em sua cronologia".

A explicação para essas afirmações extravagantes estaria principalmente na mudança do calendário juliano para o calendário gregoriano em 1582. O objetivo desta troca, ordenada pelo papa Papa Gregório XIII, foi corrigir os erros da contagem anterior e adotar um cálculo mais preciso. Segundo Illig e Niemitz, porém, em vez do ajuste de dez dias feito na passagem de um calendário para o outro, o cálculo correto teria que ter considerado treze dias. Para eles, por trás desta discrepância matemática esconde-se na realidade uma falsificação de datas que teria acrescentado os tais 297 anos inexistentes. Os principais beneficiados desta conspiração teriam sido Otto III, líder do Império Romano, interessado em reinar no mítico ano 1000 (quando na verdade estaria reinando no ano 700), e Constantino VII, líder do Império Bizantino, responsável por ordenar que todos os documentos existentes fossem reescritos num novo formato (o motivo não é claro, mas a oportunidade para falsificar datas é ótima).

A teoria do Phantomzeit, além de ser surpreendente em si, sugere conseqüências ainda mais surpreendentes. Alguns eventos históricos atribuidos àqueles anos supostamente inexistentes não poderiam ter ocorrido, ao menos não na época em que estão registrados. Niemitz aponta "brechas" nos relatos conhecidos, como por exemplo um buraco de quase trezentos anos na história da construção de Constantinopla. E vai ainda mais longe, afirmando que alguns personagens históricos da época seriam pura ficção, apontando ninguém menos que Charlemagne como herói mítico criado pelo clero.

O que não surpreende é o ceticismo da maior parte dos historiadores em relação à teoria do Phantomzeit. Além da falta de provas contundentes para todas estas afirmações extraordinárias, vários detalhes parecem mostrar que tudo não passa de uma idéia engenhosa mas sem base na realidade. Mesmo se deixarmos de lado a dificuldade de promover em todo o mundo um ajuste radical de datas sem deixar qualquer registro disto, existem ainda outras formas de contar a passagem do tempo que não dependem de artefatos criados pela humanidade. E análises da posição dos astros (arqueoastronomia) ou estudos dos anéis internos das árvores (dendrocronologia) não dão mostras de discrepâncias cronológicas, confirmando a contagem que usamos hoje.

Então, em quem você acredita? Nossos registros históricos estão todos como deveriam estar ou afinal deveríamos ajustar nossas datas do século XXI para o século XVIII?


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