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gibis na sala de aula - parte 1

quadrinhos por Gian Danton

Durante muito tempo, pais e professores acreditavam de que as histórias em quadrinhos eram nocivas. Quando muito, as HQs eram consideradas "coisa de criança" e os que permanecessem lendo esse tipo de mídia na idade adulta eram vistos com desconfiança.

As histórias em quadrinhos eram acusadas de desestimular a leitura (as crianças ficariam preguiçosas ao lerem gibis) e a criatividade (uma vez que já traziam o desenho das cenas, deixando pouco para a imaginação do leitor). Além disso, segundo o livro Sedução dos Inocentes, de Fredrick Werthan, publicado nos EUA no início dos anos cinqüenta, os gibis seriam responsáveis pela delinqüência juvenil.

Esses pontos de vista já foram suficientemente demonstrados como equivocados. Alguns dos maiores escritores da atualidade foram leitores ávidos de quadrinhos. Ray Bradbury, talvez o melhor escritor norte-americano do século XX, dizia que era filho de Flash Gordon. Umberto Eco, badaladíssimo pelos intelectuais, é um grande fã de quadrinhos. No Brasil há vários escritores famosos que são fãs de quadrinhos, Jô Soares entre eles.

Quanto aos quadrinhos não estimularem a imaginação, os pesquisadores têm percebido exatamente o oposto. Embora os desenhos mostrem o cenário e os personagens, o movimento, a ação ocorre na cabeça do leitor. É no espaço entre um quadrinho e outro que a imaginação do leitor trabalha. Na época em que morava em Curitiba, eu e o desenhista Antonio Eder gostávamos de fazer uma brincadeira com nossos alunos em cursos de quadrinhos (muitos deles professores interessados em utilizar os gibis em sala de aula). Mostrávamos um garoto, visivelmente apertado, entrando em um banheiro. No desenho seguinte mostrávamos ele saindo com uma visível expressão de alívio. Perguntávamos então à platéia o que havia acontecido. A resposta inevitável era: "Ele fez xixi". Ao que respondíamos: "Não, foram vocês que fizeram xixi. Nós não mostramos isso. Vocês completaram a cena em suas cabeças".

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília no ano de 2001, a pedido da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, só veio confirmar o que os leitores de quadrinhos já sabiam há muito tempo. O principal resultado da pesquisa foi a constatação de que os alunos leitores de quadrinhos têm desempenho escolar melhor do que aqueles que usam apenas o livro didático. Entre os alunos da quarta série da rede pública, os gibis quase dobram a performance. Além disso, nas provas do MEC, o percentual das melhores notas foi de 17,1% entre os que lêm quadrinhos contra 9,9% entre os que não têm costume de ler quadrinhos.

Na verdade, essa pesquisa só veio corroborar o que já diziam várias outras pesquisas, feitas em diversos países: os quadrinhos são um fator importante na formação intelectual dos alunos. Curiosamente, os que criticam os quadrinhos são justamente aqueles que não têm o hábito da leitura. Pessoas com alto nível intelectual têm se voltado para as possibilidades pedagógica dos gibis.

As vantagens do uso de quadrinhos na sala de aula são óbvias. Ao contrário de outras mídias, as HQs têm baixo custo de produção e é muito fácil conseguir exemplares (basta pedir aos alunos e a maioria trará de casa). Mas atenção: antes de levar as histórias os gibis para a sala de aula, é necessário algum conhecimento sobre o assunto. Não basta pedir para os alunos fazerem uma história em quadrinhos, sem qualquer orientação. Para melhor explorar as possibilidades pedagógicas das HQs, é necessário conhecer um pouco do processo de produção e da linguagem do meio.

Como é feita uma história em quadrinhos

A produção de histórias em quadrinhos envolve várias fases, cada uma com suas características e possibilidade de uso em sala de aula. Num primeiro momento é elaborado um roteiro. Em algumas situações, é comum essa fase ser antecedida por uma discussão a respeito da história. No roteiro são especificados a ação e os textos, incluindo os diálogos e as legendas (são o texto narrativo, que geralmente aparecem em balões quadrados), já dividindo a história em páginas e quadrinhos. O roteiro de quadrinhos geralmente segue uma estrutura parecida com a um roteiro de cinema ou de televisão. No alto, coloca-se o título, abaixo o nome do roteirista. A seguir, coloca-se a descrição dos quadrinhos com seus respectivos diálogos e textos.

Um exemplo básico de roteiro:

MUNDO DRAGÃO

HISTÓRIA DE GIAN DANTON

PÁGINA 1

QUADRO 1 - Lia, Bruno e JR estão se aproximando de uma casa abandonada.

TEXTO: A aventura começou no dia em que JR chamou os amigos para conhecerem uma casa abandonada.

LIA: Ei, JR! Tem certeza de que não é perigoso?

BRUNO: Claro que não, Lia. Só vou mostrar uma coisa que descobri...

Como se pode ver no exemplo acima, o roteiro apresenta uma visão completa de como será a história, quadro a quadro. Além da descrição, todo o texto e os diálogos já aparecem no roteiro.

Algo importante a se dizer sobre o roteirista é que ele deve ter pleno domínio da língua portuguesa, além de dominar várias outras áreas do conhecimento. Uma história em quadrinhos pode exigir conhecimentos de história, geografia, física, biologia, psicologia e várias outras áreas. Bons roteiristas de quadrinhos costumam ser leitores vorazes, que devoram tudo que lhes cai nas mãos, de revistas de geografia a publicações políticas.

Pronto o roteiro, ele é repassado ao desenhista, que faz os traços a lápis. Habitualmente este repassa a outro artista, chamado arte-finalista, que cobre de tinta preta os contornos. Se a histórias for colorida, ela geralmente é repassada a outro profissional, o colorista. Quem coloca o texto nos balões é o letrista. Hoje em dia boa parte desse processo de colorização e letreiramento é feito no computador.

Pronta a história, ela é repassada ao editor. Ele é o grande responsável por dar a cara da revista, escolhendo a capa, respondendo as cartas dos leitores, inserindo os anúncios e, se for o caso, escrevendo textos explicativos sobre a história. O editor repassa para a gráfica, que imprime, monta e grampeia as revistas, e para a distribuidora, que envia as revistas para as bancas.

Este é um esquema de uma história comercial. Há muitos autores que controlam todo o processo, fazendo do roteiro à distribuição de suas histórias. Esses autores geralmente publicam suas histórias em fanzines, feitos em fotocópias. Outros montam uma pequena gráfica em casa e fazem todo o processo artesanalmente, vendendo suas revistas pelo correio, pela internet, ou em filas de cinema ou teatro.

Alguns elementos das histórias em quadrinhos

As histórias em quadrinhos envolvem uma linguagem complexa, que foi se aperfeiçoando ao longo de mais de um século de existência dessa arte. Esses elementos e sua simbologia são tão importantes que, para quem não está acostumado com ele, pode ser até impossível entender a história.

Quadro - Também chamado de requadro ou cercadura, é o espaço no qual acontece uma ou mais ações. Nos EUA usa-se geralmente um máximo de seis quadros por página, mas alguns autores contemporâneos preferem o formato clássico de nove quadros por página (usado, por exemplo, em Watchmen). Na Europa, onde sao comuns revistas de tamanho maior, esse número pode dobrar. A disposição dos quadros na página pode facilitar ou dificultar a leitura (lembre-se que no ocidente lemos da esquerda para a direita e isso deve ser respeitado nas HQs). Além disso, a disposição dos quadros cumpre a função de dar dinamismo às seqüências.

Balão - É onde ficam as falas dos personagens. O balão normalmente é arredondado, com um rabicho que indica quem está falando. O texto narrativo é colocado em um balão quadrado. O balão não só expressa quem está falando, como pode expressar o humor da pessoa. Assim, um balão pode expressar susto, grito, medo, frieza e até amor (é o caso de um balão no formato de coração). Incentive seus alunos a descobrir vários tipos de balões e a criar seus próprios balões.

Metáforas visuais - Quando o personagem está nervoso, sai uma fumacinha da cabeça dele. Quando alguém está correndo muito rápido, aparecem vários traços paralelos para demonstrar seu deslocamento. Essas metáforas visuais são usadas pelos quadrinistas para transmitir situações da história sem necessitar utilizar o texto. Incentive seus alunos a criar metáforas visuais para várias situações. Por exemplo, como seria a metáfora visual para alguém triste? Que tipo de metáfora visual poderia demonstrar que alguém está pensando em dinheiro?

Onomatopéias - Expressam o som dos objetos e permitem que o leitor "ouça" o som das coisas. Durante muito tempo os brasileiros tentaram imitar as onomatopéias norte-americanas, mas hoje a tendência é criar palavras locais. Leve vários objetos para a sala de aula e incentive seus alunos a criar onomatopéias para eles. Por exemplo, como seria possível escrever o som de uma régua batendo no quadro? Como é o som de um cofrinho cheio de moedas sendo balançado?


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