burburinho

cinco discos para ouvir em momentos de depressão

música por Luis Gustavo Claumann

Depressão - abatimento físico ou moral. Música - arte e ciência de combinar harmoniosamente os sons. (Dicionário da Língua Portuguesa).

1. Sleeps With Angels - Neil Young
O ano era 1994, e uma canção linda e cruel tocava nas rádios e chamava a atenção pelos seus quinze minutos. Era Change Your Mind, homenagem de Neil Young para seu discípulo Kurt Cobain, que havia cometido suicídio alguns meses antes. O disco é figurinha fácil nas listas de melhores dos anos noventa. Com méritos. O álbum, pesado e melancólico, não é uma homenagem comum. Lamentando a morte, celebra a vida, evidenciando a estupidez do ato do líder do Nirvana, que, jovem e no auge da carreira, não suportou as pressões do sucesso e tomou a atitude mais radical que alguém pode tomar. Mesmo através de uma sonoridade sombria e densa, o disco transmite o que poderia ser considerado a última esperança. Algo que só faz sentido porque é assinado por alguém com o talento, a classe e a inquietação de Neil Young.

2. Automatic For The People - R.E.M.
Depois do estouro e do reconhecimento mundial com Out of Time, o R.E.M. poderia repetir a fórmula. E o que o R.E.M. faz? Exatamente o contrário. Um disco quase sem instrumentos eletrônicos, com arranjos orquestrados e lindas baladas. Simplesmente a obra-prima do grupo. Poucos são capazes de não se deixar afetar por uma canção como Everybody Hurts. E o que dizer de Drive? Dois violões e versos susurrados de forma genial: "Maybe you did / Maybe you walked / Maybe you rocked around the clock". Quer mais? O arranjo de cordas é comandado, no disco inteiro, por John Paul Jones. Sim, aquele do Led Zeppelin.

3. Chelsea Girl - Nico
Nico é uma mulher fatal, das que exercem um controle sobre tudo e todos. Ela sabe de seu poder e o usa sem medo. É aquela mulher que você encontra a noite, observa e de imediato já sabe que vai se apaixonar, que ela vai te fazer de otário, mas mesmo assim vai em frente, em direção à devoradora de cabelos loiros, olhos verdes e corpo escultural. Neste disco, na estréia de sua carreira solo e com uma canção "presente" de Bob Dylan, os desesperançosos e desajustados dos anos setenta encontraram um refúgio, na voz da diva, encharcada de drogas e álcool.

4. Dummy - Portishead
Melancolia comparável a um moedor de carne. O primeiro grande, talvez o único decente, disco de trip-hop estilo downbeat, com certa inspiração em trilhas de filmes noir. Beth Gibbons interpreta canções que obrigam o ouvinte a parar tudo que está fazendo para se deixar inundar totalmente por sua irresistível beleza, capaz de ir da tensão à depressão como quem atravessa a rua. Portishead não é uma banda fácil de se ouvir, é estranha, com vários ruídos esquisitos e adentrar na musicalidade da banda é tarefa para quem tem sensibilidade.

5. Berlin - Lou Reed
Em 1959, Lou Reed tinha 17 anos e levou 24 sessões de choques elétricos, receita de um psiquiatra para "curar pensamentos homossexuais". O resultado foi um Lou com problemas no cérebro, ódio dos pais, e uma ironia fina e calculada em poucas palavras. Em 1973, Lou Reed lançou Berlin, seu melhor trabalho, composto de dez canções que falam das tortuosas e desesperançosas vivências de uma prostituta chamada Caroline na cidade alemã. E, com todos os aparatos possíveis, é quase uma ópera rock, mas ao mesmo tempo também remete à sensações como um tiro no escuro ou um pulo no abismo.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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