burburinho

belas instrumentistas

música por Alex Cristiano Hammes

Uma eficiente estratégia de venda de CDs de música clássica é tornar as instrumentistas tão apetecíveis à vista como top models numa passarela e fazer das violinistas uma proposta irresistível de sensualidade. É ver Vanessa Mae de camiseta molhada na capa do disco, a brilhante Anne-Sophie Mutter tocando de calça jeans nos mais sérios auditórios ou a loura finlandesa Linda Lampenius, que nos intervalos das apresentações posou nua para a Playboy. Para sair do anonimato, vale tudo. Sempre que detectam entre o seu catálogo de solistas de música clássica uma artista com potencial, as grandes gravadoras não hesitam em comercializá-las com os mesmos truques utilizados pela indústria pop.

Nina Kotova, uma jovem russa de 27 anos, e ex-menina prodígio do conservatório de Moscou, chama a atenção. Lançou o primeiro CD e apresentou uma série de concertos no Carnegie Hall de Nova York. Kotova tem a seu favor a impressão que causa no público assim que aparece: 1,80m de um corpo belo, salientes bochechas eslavas e olhos cristalinos. O que ainda não foi tirado a limpo é se a agitação foi provocada pelo som que arranca ao violoncelo numa interpretação de Rachmaninov, se pelas suas características físicas, ou se pelas duas coisas ao mesmo tempo. O que é certo é que ter um passado interessante, que a coloca ao lado de Claudia Schiffer nas divagações masculinas, ajuda. Nina percorreu as passarelas nova-iorquinas envergando vestidos Armani ou modelos Lagerfeld. E, embora tudo isso faça parte de um passado que quer deixar para trás, a jovem russa não resistiu e incluiu, no seu primeiro álbum, uma composição sua de nome Sketches from the Catwalk. Tampouco resistiu a se deixar fotografar abraçando o violoncelo num flamejante vestido vermelho.

Vanessa Mae, nascida em Singapura em 1978, mudou-se aos quatro anos para Londres e começou a tocar violino um ano depois. Rapidamente a sua técnica se tornou famosa. Com onze anos, e já com uma vasta carreira, foi considerada um verdadeiro prodígio. Aos treze gravou discos e aos quatorze começou a compor e a interpretar música pop. Tornou-se mundialmente conhecida com o sucesso do álbum The Violin Player e com a sua presença em palco. Tanto interpreta os concertos de Beethoven como o Yellow Submarine dos Beatles. Atualmente dedica-se a misturar gêneros como o acid-jazz, o pop e o rock. As suas biografias costumam sublinhar o virtuosismo e o fato de ter nascido a 27 de Outubro. A mesma data do nascimento de Paganini.

Linda Lampenius nasceu com este nome finlandês, mas sentiu necessidade de mudar para um nome de guerra: Linda Brava. Todo seu visual parece um clone da Pamela Lee Anderson. Já chegou a fazer apresentações utilizando apenas um maiô igual ao usado pelas nadadoras da série de tv Baywatch. Foi até convidada para uma participação especial na série. Em tempos remotos tocou na Orquestra Nacional da Finlândia, mas atualmente derivou para o techno. Seu maior feito foi ter aparecido nua na edição norte-americana da Playboy, contracenando apenas com o seu violino.

Anne-Sophie Mutter é considerada como uma das maiores intérpretes de violino da atualidade. Gravou já todos os grandes concertos para o instrumento e é tão dotada na música erudita do passado como nos compositores vivos. Grava para a alemã Deutsche Gramophone. Estreou num palco aos treze anos, apadrinhada pelo maestro Herbert von Karajan e interpretando uma peça de Mozart. No início da carreira, com pouco mais de vinte anos, chegou a atingir médias anuais de 120 concertos.

Muitos puristas reclamam da estratégia de marketing que se centra mais na aparência da instrumentista que na música que ela é capaz de tocar. Mas é inegável o apelo que isto provoca numa camada de público que por outras razões talvez nunca comprasse um CD de música erudita. E se você puder escolher a música que o seu vizinho vai tocar mais alto que deveria, vai preferir um pouco de Paganini ou mais um grupo de pagode?


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