burburinho

napoleão bonaparte e o tinto chambertin

miscelânea por Luis Gustavo Claumann

General carismático, maior cabo de guerra dos tempos modernos, inigualável estrategista, estadista arguto e glorioso imperador da França, Napoleão Bonaparte foi, nos seus hábitos alimentares, um modelo de sobriedade, bem longe do perfil megalômano que lhe é reconhecido em termos de conquistas militares. Na composição das suas refeições diárias não havia refinamento muito maior do que nas de um simples soldado. Despachava as refeições com um rigor militar, não excedendo os quinze minutos para cada uma, preferia comer com as mãos e nos banquetes oficiais esfregava o pão no molho que sobrara no prato.

Conta a lenda que, numa noite de muitos afazeres, Napoleão simplesmente esqueceu de jantar, para desespero de seus cozinheiros. No ímpeto de jamais desagradar o alto comandante, 23 frangos foram colocados sucessivamente no espeto, ressaltando a preocupação da equipe de cozinha em levar o animal quente para a mesa. Na ocasião alguém teria comentado que "quando um homem faz perder, assim, 22 frangos, tem-se direito a concluir daí que ele nada percebe de cozinha".

Também a Napoleão são creditadas diversas superstições. Numa de suas batalhas mais legendárias, em Marengo, no norte da Itália, seu cozinheiro se obrigou a improvisar um prato com os mantimentos que estavam a mão. Um frango, três ovos, quatro tomates, seis camarões de água doce, alguns dentes de alho, um ramo de salsinha e um pouco de azeite formaram um prato exótico que caiu nas graças do imperador. A tentativa de refinar a receita, na volta a Paris, foi proibida por Napoleão, que acreditava que um prato surgido num momento de glória não deveria sofrer alterações, ou poderia trazer azar em novas batalhas.

E assim foi com o vinho tinto Chambertin, da Bourgogne. Um frutado compacto muito exótico, grande raça e força, assertivo, mas ao mesmo tempo refinado e envolvente, que Napoleão conheceu quando ainda era oficial de artilharia, numa temporada na Côte D'Or. Desde a descoberta, foi um tinto tão importante na vida de Napoleão que um dos donos da firma parisiense encarregada de seu fornecimento sempre o acompanhava nas campanhas militares. Existe até uma gravura datada de 1807 na qual o imperador usa seu vinho favorito para saudar o rei, a rainha da Prússia e o imperador da Rússia.

Mais uma vez, a lenda conta que a derrota na batalha de Waterloo, contra o inglês Wellington e o prussiano Blücher, se deu pela ausência do vinho nos campos de batalha. Não bastasse isso, Napoleão teria morrido no exílio na ilha de Santa Helena não por ter sido envenenado pelos ingleses, mas tão somente pela ausência de sua bebida predileta. Para o consumo, lhe eram servidos apenas os tintos de Bordeaux, que achava fracos, e uma garrafa de um vinho da Ilha de Madeira, presente de um cônsul inglês, que jamais chegou a ser degustado por Napoleão, talvez receoso de segundas intenções da oferta.

Elaborado com a uva Pinot Noir, o vinho de Napoleão ainda é produzido na pequena comuna de Gevrey-Chambertin, na Côte de Nuits, entre Beaune e Dijon. Pode ser bebido aos seis anos, mas alcança o apogeu uma década depois da elaboração.


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