burburinho

lua de cetim

teatro por Clarice Maia Scotti

Alcides Nogueira estudou teatro amador em Botucatu, interior de São Paulo, e formou-se em Direito pela USP, com especialização em Direito Autoral na Organização Mundial da Propriedade Intelectual, em Genebra, Suíça. Encenou, em 1977, sua primeira peça profissional A Farsa da Noiva Bombardeada, que ficou um mês em cartaz e foi censurada. Foi em 1981 que seu primeiro sucesso, Lua de Cetim, lhe rendeu o prêmio Molière e ainda convites para escrever para a televisão (acabaria fazendo telenovelas como Rainha da Sucata e De Quina pra Lua). A peça mostra a trajetória de uma família do interior, e se passa em três momentos distintos: 1961, 1971 e 1981.

Dona Candelária é uma dona de casa trabalhadora e pé-no-chão. Seu marido, Guima, é dono da falida loja de tecidos A Admirada e um eterno sonhador. Eles são pais de Júnior, que no começo da história ainda é uma criança. Depois de adulto, Júnior acaba se envolvendo nos movimentos estudantis de combate à ditadura. Com uma dosagem perfeita de humor e drama, acompanhamos a luta diária dos personagens em seu pequeno universo, ao mesmo tempo em que percebemos as influências do conturbado cenário político nacional. Dona Candê, que sonha ver seu filho gerente do Banco do Brasil, sustenta a casa vendendo tapetinhos de retalhos dos tecidos encalhados na loja do marido, que por sua vez segue acreditando que um dia será dono da "maior potência de tecidos" da cidade.

A trilha sonora de primeira qualidade conta com nomes que vão de Chopin e Schubert a Gal Costa e Maria Bethânia, passando por Altamiro Carrilho e Lupicínio Rodrigues, dentre tantos outros. Personagens que não aparecem, mas são constantemente citados, como a vizinha futriqueira dona Nicota ou a comadre Anunciadina, conferem um charme extra ao espetáculo, que mexe por todo o tempo com a imaginação do espectador.

A imaginação, por sinal, é fio condutor da trama. O conflito entre a fantasia e a vida real está presente do início ao fim, e é impossível não reconhecer em cena um ou outro retalho de nossa própria vida. Mais uma vez, é dona Candê, com toda sua sabedoria de mulher criada na roça, que nos desvenda o mistério: "todo homem nasce com dois sacos nas costas: um de sonho, outro de realidade. Não podemos encher demais apenas um deles, senão não conseguimos carregar e acabamos deixando o outro muito vazio."


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