burburinho

eu, robot

livros por Nemo Nox

Isaac Asimov (1920-1992) publicou centenas de livros. Dependendo de como feita a conta (incluindo antologias ou não, incluindo trabalhos colaborativos ou não, etc), o total pode ultrapassar os quinhentos títulos. Em meio a tanta produção, possivelmente seu livro mais famoso é a coletânea de contos Eu, Robô (I, Robot), lançada em 1950 e lida até hoje.

I, Robot reúne nove histórias curtas que redefiniram o papel dos robôs na literatura de ficção-científica. Segundo o próprio Asimov, na década de trinta o principal papel dos robôs na literatura era servir de ameaça aos protagonistas humanos. Mas ele estava mais interessado em outro tipo de abordagem, explorada por poucos autores que procuravam criar empatia com esses personagens mecânicos. Assim, quando escreveu seu primeiro conto sobre robôs em 1939, Robbie, imaginou um andróide-babá, seu relacionamento com uma garotinha e a desconfiança tecnófoba da mãe da menina. É esta a história que abre o livro.

O segundo conto de I, Robot pode não ser um dos melhores trabalhos de Asimov mas é certamente um dos mais influentes. Runnaround, de 1941, conta a história de um robô que, forçado a seguir determinadas normas de segurança entra em conflito lógico e começa a andar em círculos. Estas normas eram as hoje famosas Leis da Robótica de Asimov: "1. Um robô não pode fazer mal a um ser humano nem, por inação, permitir que algum mal lhe aconteça. 2. Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, exceto quando estas contrariarem a primeira lei. 3. Um robô deve proteger sua integridade física, exceto quando isto contrariar a primeira ou a segunda lei." Asimov via seus robôs como produto da mente de engenheiros cheios de senso prático, que embutiriam normas de segurança nos circuitos das máquinas de forma a não permitir a existência do tradicional clichê da ficção-científica da época, o "robô-como-ameaça". Claro que, para que suas histórias tivessem algum interesse dramático, nem tudo sempre corria como planejado. Algumas vezes, os robôs viam-se em situações nas quais tornava-se difícil ou impossível seguir as três leis. Em outras ocasiões, interpretavam de forma demasiadamente literal uma ordem e criavam conflitos lógicos. É também em Runaround que aparece pela primeira vez o termo "robótica", mais tarde adotado pela comunidade científica.

Os protagonistas humanos de Runaround, Greg Powell e Mike Donovan, voltam a aparecer em outros contos. Funcionários da gigantesca empresa U.S. Robots and Mechanical Men, os dois roboticistas são enviados a diversos cantos da galáxia para resolver problemas com robôs que não se comportam como seus chefes acham que deveriam se comportar. Em Reason, de 1942, deparam-se com um com delírios religiosos. Em Catch that Rabbit, de 1944, devem desvendar o mistério de um robô minerador que pára de trabalhar sem explicação aparente. Em Escape!, de 1945, são vítimas da brincadeira de um robô com senso de humor. Asimov explora com grande habilidade as implicações lógicas e éticas de suas leis da robótica, e estes contos funcionam ao mesmo tempo como desafio mental (o leitor fica tentando descobrir a solução dos mistérios apresentados) e como crítica comportamental (a irracionalidade da religião em Reason, o escapismo psicológico em Escape!, etc).

Mais importante que Powell e Donovan, tanto no organograma da U.S. Robots and Mechanical Men quanto na hierarquia da ficção asimoviana, é a doutora Susan Calvin, psicóloga de robôs. Ela aparece pela primeira vez em Liar!, de 1941, onde estuda um robô com poderes telepáticos que acabam criando problemas ao esbarrar nas leis da robótica. Em Little Lost Robot, de 1947, um dos melhores contos do livro, ela defronta-se com um robô ligeiramente diferente dos outros (a primeira lei foi alterada no seu cérebro positrônico) e tem que descobrir uma forma de enganá-lo. No já mencionado Escape!, precisa diagnosticar um robô sob risco de colapso por causa de um possível conflito entre um problema que examina e as leis da robótica. Em Evidence, de 1946, é consultada numa investigação para saber se um político seria realmente humano ou um robô disfarçado. É nesta história que Susan revela claramente seus sentimentos, quando perguntada se os robôs seriam mentalmente muito diferentes dos humanos: "Completamente diferentes. Os robôs são essencialmente decentes." Na verdade, as leis da robótica funcionam como um sistema ético e faz com que os robôs se comportem basicamente como pessoas bondosas. Como diz a própria doutora Calvin, "você não consegue diferenciar entre um robô e os melhores seres humanos".

O último conto do livro, The Evitable Conflict, de 1951, também é protagonizado por Susan Calvin (além de aparecer em cinco contos e na narrativa que alinhava I, Robot, ela ainda foi incluída em mais cinco histórias de Asimov). Aqui, os robôs já evoluíram muito e estão longe do simples andróide-babá de Robbie. Os exemplares mais complexos são computadores enormes, chamados simplesmente de "máquinas", e bastam cinco deles para controlar toda a economia do planeta. Aos humanos resta somente seguir as instruções destes cérebros artificiais, com a certeza que mesmo quando suas decisões parecem incompreensíveis ou mesmo equivocadas eles continuam não podendo fazer mal a um ser humano nem, por inação, permitir que algum mal lhe aconteça. Utopia ou distopia?

Isaac Asimov ainda escreveria muitas histórias sobre robôs, algumas poucas sem mencionar as leis da robótica (Sally, por exemplo, tem automóveis robotizados que mais parecem saídos de Christine de Stephen King que de I, Robot) mas a maioria lentamente formando um universo ficcional coerente (existem algumas pequenas contradições de um livro para outro, o que não chega a ser estranho numa carreira que gerou centenas de títulos e durou mais de cinqüenta anos) e aproveitado por vários outros autores depois da sua morte (Benford, Bear e Brin escreveram um volume cada um de uma nova trilogia da série Fundação, Michael Kube-McDowell e Michael McQuay escreveram dois volumes de Robot City, e muitos outros). I, Robot, porém, por seu pioneirismo e por sua simplicidade, permanece isolada como uma pequena obra-prima da ficção-científica.


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