burburinho

drawn together

televisão por Luis Gustavo Claumann

Reality shows tornaram-se parte integrante da idéia contemporânea de entretenimento. Sentar-se no sofá da sala para apreciar as tensões que surgem em um grupo confinado ou submetido a certas exigências tornou-se uma mania no mundo inteiro. Um bom exemplo é A Casa de 1900, no qual uma família tem que viver em um lar nos moldes do início do século passado, com uma moderna dona-de-casa se desesperando diante de tarefas como passar roupa com ferro à carvão e seus filhos sem saber o que fazer sem televisão. Em outro ótimo reality show, famílias americanas são levadas para viver entre povos "exóticos" do Terceiro Mundo, onde acabam colocando em dúvida os valores do american way of life. Já em Amazing Race, competidores são jogados em países que não conhecem, precisando chegar a um certo ponto determinado, sofrendo com línguas diferentes e choques culturais.

É claro que para cada bom programa surgem cinco de gosto duvidoso. E são justamente esses que fazem mais sucesso. O Big Brother, programa produzido pela holandesa Endemol e que consiste em confinar um grupo de pessoas em uma casa sem contato com o mundo externo e simplesmente filmar seu dia-a-dia, ganhou versões nacionais em países americanos, europeus, asiáticos e até no mundo árabe. E é justamente em forma de sátira a este formato que o Comedy Central, canal já conhecido pelo politicamente incorreto South Park, lançou Drawn Together, uma versão em desenho animado que ganhou o pouco inspirado título Casa Animada no Brasil.

Para o confinamento, oito criaturas propositalmente inspiradas em personagens famosos são confinadas em uma casa e têm seu dia-a-dia acompanhado por nada menos que "um milhão de câmeras e microfones". Naturalmente, ninguém é poupado e todos tem seus podres expostos. Princesa Clara, por exemplo, é uma típica princesinha de contos de fadas da Disney, inocente e mimada e, para completar, racista. No seu primeiro comentário no confessionário (outra referência ao Big Brother), ela diz adorou seus novos colegas de casa mas fez uma ressalva sobre o fato de todos serem bem mais pobres que ela. Quando a mulatona Foxxy Love (Chica Ximbica na versão brasileira) aparece, Clara pede a ela que leve sua bagagem para o quarto, crente que Chica seja apenas mais uma serviçal. Chica, na verdade, é inspirada na personagem Valéria do desenho Josie e as Gatinhas, mas aqui não é apenas uma mocinha negra que tem uma banda, ela é uma espécie de "black bitch" com atitude. Se veste como uma funkeira, é ultra-desbocada, liberadíssima sexualmente e revoltada contra o preconceito racial.

Capitão Herói é o típico herói, como o Super-Homem ou o Capitão América, fortão e valente. Só que obsessivamente vaidoso e, além disso, pedófilo, do tipo que adora bolinar menininhas de doze anos. Betty, inspirada na vedete Betty Boop, é uma veterana atriz de desenhos animados da década de vinte que, hoje, está bem acima do peso e não consegue mais "pegar" ninguém, apesar de suas roupinhas ousadas e suas tentativas e insinuações para cima de todos os homens da casa. Por ser da década de vinte, é uma personagem em preto-e-branco (gag que já havia sido utilizada com a mesma Betty Boop no filme Who Framed Roger Rabbit).

Ling Ling é uma espécie de Pikachu que só quer saber de causar convulsões em criancinhas e atacar as pessoas ao seu redor. Mas, como ninguém ali na casa conhece seus poderes, ele é tratado como o animalzinho de estimação da turma, o que o deixa revoltado. Seu sotaque japonês é impagável e incompreensível, tanto que todas suas falas aparecem legendadas. Onanias é o clone de Bob Esponja. Esquisitão, ele está sempre tentando chamar a atenção e fazendo coisas bizarras. Spanky Ham é um porquinho que só faz porcarias, adora andar nu pela casa e é chegadão numa sacanagem. Por fim, Xande é uma espécie de elfo lindo, mas completamente afeminado. Inspirado em um personagem do videogame A Lenda de Zelda, ele diz estar sempre engajado em uma interminável busca para salvar sua namorada, mas logo os telespectadores descobrem que as coisas não são bem assim.

O material usado para fazer humor é exatamente o que se passa num reality show. Demonstrações de racismo, ignorância, sensualismo, preconceito sexual e tantas outras características que costumam atacar as pessoas de carne e osso são exploradas a cada boa piada do desenho animado, mostrando como os reality shows são um festival de degradações humanas. Muito sexo, drogas, escatologia, perturbações mentais, depressão e perversões variadas também estão no cardápio.

Num dos episódios, a princesa recebe a visita de uma prima que tem síndrome de Down, e a bota para dormir numa casinha de cachorro. Enquanto isso, os outros personagens descobrem que lamber o Pikachu dá barato, e ficam todos doidões com as secreções dele. Como de hábito também em reality shows, quando a coisa está meio devagar, a "produção" promove uma festinha movida a tequila para os convidados se soltarem. Quando seis dos personagens estão no ofurô, começam as discussões acaloradas, mas logo tudo acaba em beijos ardentes trocados por um par bastante inusitado. Ainda existem as tensões pré-paredão, as câmeras no banheiro, as provas da comida e as intrigas. Para quem adora desenhos trash é uma excelente pedida e garantia de muitas risadas.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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