burburinho

a saga do tio patinhas - parte 2

quadrinhos por Nemo Nox

No sexto episódio, The Terror of the Transvaal (1886-1889) a ação transfere-se para o sul da África, onde Patinhas vai procurar ouro e acaba encontrando um inimigo, Flintheart Glomgold (no Brasil, Pãoduro MacMoney). Mais tarde na cronologia dos patos (mas na realidade em 1956, numa história de Carl Barks chamada The Second Richest Duck), os dois se reencontrarão em Patópolis numa disputa sobre quem seria o mais rico. Don Rosa é um cinéfilo e muitas de suas histórias fazem referências a clássicos do cinema (e vez por outra a filmes bem mais obscuros). The Terror of the Transvaal, apesar de passada na África, homenageia os westerns em mais de uma ocasião. No melhor estilo de pistoleiro do faroeste, Patinhas caminha silhuetado pelo centro da rua enquanto toca a música de High Noon ("Do not forsake me oh my darlin'...") e entra no sallon dizendo a frase de John Wayne em True Grit ("Fill your hand!").

Da África para a Austrália, e no sétimo episódio, The Dreamtime Duck of the Never Never (1893-1896), Patinhas já está manuseando bumerangues e didgeridoos em meio a cangurus e avestruzes. É lá que ele encontra um xamã aborígene e se descobre parte de uma profecia ancestral. Don Rosa tem o hábito de esconder duas brincadeiras em seus desenhos. Uma delas é escrever em lugares estranhos as letras D.U.C.K., sigla de Dedicated to Unca Carl from Keno, ou Dedicado pelo Keno ao Tio Carl (o nome completo do artista é Gioachino Don Hugo Rosa, e Gioachino acabou gerando o apelido Keno). Nesta história, por exemplo, as letras estão nos joelhos do camelo da capa. A outra é esconder pequenos Mickeys na história, e o roedor mais famosos dos quadrinhos aqui acabou parte de uma pintura rupestre dos aborígenes que aparece na página seis.

O oitavo episódio, The King of the Klondike (1896-1899), mostra o momento culminate da vida de Patinhas, quando seus esforços para encontrar ouro são finalmente recompensados e ele descobre no Canadá o veio que lhe renderia o primeiro milhão de patacas. Barks já havia mencionado em suas histórias essa parte do passado de Patinhas, como por exemplo em Back to the Klondike ou North of the Yukon. É interessante ressaltar que a origem da riqueza do velho pato está em trabalho árduo (e não na sorte gerada pela moedinha número um, mito que Don Rosa renega várias vezes durante a saga) mas não na produção de bens. Depois de várias tentativas infrutífera de extrair ouro, entre elas as da África e da Austrália relatadas nos episódios anteriores, Patinhas obtém sucesso no Klondike e imediatamente passa a explorar o trabalho alheio. No nono episódio, The Billionaire of Dismal Downs (1899-1902) vemos como passou de minerador a banqueiro e começou a emprestar dinheiro para outros mineradores em troca de 50% de todo o ouro encontrado por eles. Até mesmo nos quadrinhos, dinheiro gera mais dinheiro. Este capítulo da saga é também significativo por mostrar Patinhas retornando mais uma vez à Escócia mas já não conseguindo se adaptar à sua terra natal. Segundo ele, todos aqueles costumes e tradições estavam demasiadamente presos ao passado e sua vida agora voltava-se para o futuro e para o progresso. Assim, resolve partir novamente para a América e levar junto suas irmãs. O pai, já viúvo (temos a notícia da morte da mãe de Patinhas no episódio anterior), resolve ficar para trás e viver seus últimos dias na Escócia. Don Rosa aproveita a oportunidade para homenagear mais um clássico do cinema, espelhando a morte de Fergus McDuck no filme The Ghost and Mrs. Muir, do Joseph L. Mankiewicz. Como em sua visita anterior à Escócio, Patinhas também adquire um elemento da sua conhecida indumentária, desta vez o paletó vermelho que o acompanhará por muitos anos.

O décimo episódio, The Invader of Fort Duckburg (1902), marca a chegada de Patinhas e suas irmãs a Patópolis, cujo nome original em inglês é Duckburg, no estado de Calisota. Logo no primeiro quadrinho Don Rosa marca num mapa a localização da mítica cidade, e basta comparar com o mapa dos EUA para constatar que fica na Califórnia, na baía em que está, na realidade, uma cidade chamada Eureka. O episódio é repleto de outras referências que fazem a alegria dos fãs do universo Disney, mostrando por exemplo o primeiro encontro de Scrooge, Matilda e Hortense (Patinhas, Matilda e Hortência) com Elvira Coot, mais conhecida como Grandma Duck (Vovó Donalda), seu marido Humperdink Duck (Tomás Reco), e seus filhos Daphne, Elder e Quackmore (Patrícia, Patolfo e Patoso). Sim, podemos ver o início do romance entre os estourados Quackmore e Hortense, futuros pais do Pato Donald. A trama envolve os Irmãos metralha invadindo a fortificação que ficava onde mais tarde Patinhas construiria sua gigantesca caixa-forte, mas ainda sobra espaço para mostrar também, por exemplo, que a sorte do Gladstone Gander (Gastão) parece ter sido herdada de sua mãe Daphne Duck (Patrícia Pata) e que já existia naquela época uma versão antiga do Clube dos Escoteiros-Mirins (incluindo o pai do Professor Pardal).

O penúltimo episódio, The Empire Builder from Calisota (1909-1930), mostra o lado negro de Patinhas. Já bilionário e cada vez mais avarento, é numa viagem à África que deixa para trás seus princípios de honestidade e contrata uma turma de malfeitores para destruir a aldeia indígena que se recusava a vender-lhe suas terras. Suas irmãs voltam para casa revoltadas e Patinhas começa então a rodar por todo o mundo acumulando mais e mais riquezas. Somente depois de quase trinta anos ele volta para Patópolis, já como o pato mais rico do mundo, mas seu mau humor não permite uma reconciliação com a família. Cabe a um Pato Donald ainda na infância mas já com roupinha de marinheiro expressar o sentimento de todos com um pontapé no traseiro do tio.

O último episódio, The Richest Duck in the World (1947), tem uma estrutura engenhosa. Don Rosa retoma a história que deu origem ao personagem e situa sua trama exatamente entre a penúltima e a última página de Christmas on Bear Mountain, antes do jantar de natal de Patinhas e seus sobrinhos. Uma tentativa de assalto à sua caixa-forte (claro, os Irmãos Metralha mais uma vez) faz o velho pato invocar a energia de seus tempos de aventureiro, no que seria uma espécie de redenção (voltamos à idéia de Dickens) que reúne o milionário avarento com a família que renegara dezessete anos antes. Mas é difícil considerar Patinhas um herói digno da nossa admiração depois de tudo que ele já fez. Além disto, sua avareza, como bem sabemos, é incurável. Não causa surpresa que críticas severas à ideologia do universo Disney, como o clássico anti-imperialista Para Ler o Pato Donald (de Dorfman e Mattelard), façam de Patinhas um alvo preferencial. A narrativa deste último episódio mostra mais uma vez a paixão de Don Rosa pelo cinema e começa com uma paródia a Citizen Kane, com direito a documentário cinematográfico sobre o magnata, Xanadu e Rosebud (ou algo parecido). As semelhanças, porém, param por aí, já que Scrooge McDuck está longe de ter a profundidade ou o carisma de Charles Foster Kane.

A saga The Life and Times of Scrooge McDuck fez tanto sucesso que Don Rosa acabou criando mais episódios para ela, histórias que se encaixariam no intervalo entre um capítulo e outro e acabaram recebendo números como 6.5 (The Vigilante of Pizen Bluff, onde Patinhas encontra Buffalo Bill, Gerônimo, os irmãos Dalton e P.T. Barnum) ou 8.5 (Hearts of the Yukon, com seu par romântico Goldie O'Gilt, conhecida no Brasil como Dora Cintilante). Um dos melhores episódios de toda a série faz parte deste grupo e leva o número 3.5, The Cowboy Captain of Cutty Sark. Passado em 1883 na Indonésia, mostra Patinhas a bordo do lendário navio Cutty Sark e enfrentando a erupção do vulcão de Krakatoa. Bons tempos em que o velho Scrooge era um aventureiro destemido e não o velho ranzinza e avarento que se tornou mais tarde.


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