burburinho

voz do fogo

livros por Luis Gustavo Claumann

Era uma noite escura e tempestuosa. Guy Fawkes subiu no topo da Casa do Parlamento inglês e enfileirou lá em cima nada menos que 36 barris de pólvora. Mas por quê? Porque a realeza, de religião protestante, não era tolerante com os ingleses católicos. Assim, Guy Fawkes e seus comparsas decidiram mandar pelos ares o Rei James I, o Príncipe de Wales e os Membros Parlamentares. Era o surgimento dos primeiros bombistas extremistas.

Naquela noite do dia 5 de novembro de 1605, Guy Fawkes estava certo que ia mudar para sempre a história da Inglaterra. Porém, antes que ele conseguisse acender o pavio, as autoridades inglesas conseguiram desarmar o plano. Guy Fawkes foi preso, torturado e executado. Desde então, nas noites de todo 5 de Novembro, o Reino Unido celebra o Bonfire Night com fogos de artifício, fogueira e queima do boneco simbolizando Guy Fawkes. É uma comemoração ambígua. Uns celebram a execução do traidor, outros celebram a sua coragem de enfrentar o poderio monárquico.

Informações sobre o revolucionário, que realmente existiu, estão no capítulo Confissões de uma Máscara, apenas uma das treze histórias presentes em Voz do Fogo, estréia literária de Alan Moore, famoso até então como roteirista de quadrinhos. Diga-se de passagem, quem curtiu V de Vingança, do mesmo autor, provavelmente também curtirá esta leitura, que revela dados surpreendentes sobre o revolucionário que inspirou o personagem V.

Voz do Fogo, tratando de mitos perdidos e mostrando o lado oculto da natureza, narra a vida de extraordinários personagens que viveram na mesma região da Inglaterra durante cinco mil anos. Jovens bruxas, poetas loucos, velhos guerreiros e cabeças falantes pintam a história de Northampton, cidade natal do autor, através simbolismo do fogo, que no caso é menos ligado ao da redenção e mais à propagação do sofrimento.

O lado obscuro da história da humanidade é visto de um único lugar. Ligados geograficamente num raio de dezoito quilômetros, embora separados por um espaço de cinco mil anos, cada capítulo traz uma voz diferente das cinzas do passado. Logo no primeiro, o leitor se depara com uma das curiosidades do livro. Moore inventou uma linguagem, com perto de quatrocentos vocábulos, para, segundo contou numa entrevista, se aproximar do que poderia ser o padrão de raciocínio do período neolítico. A tradução brasileira, em edição da Conrad Editora, mostrou-se bastante eficiente ao capturar a intenção original. Ainda bem.

As evoluções da própria língua local, por sinal, são explícitas a cada capítulo e típicas de um perfeccionismo já conhecido por quem está acostumado com a densidade dos trabalhos de Moore nos quadrinhos. Do Inferno, por exemplo, mergulhou o autor em dez anos de pesquisa sobre Jack, o Estripador. Para Voz do Fogo, edições antigas do jornal local Mercury & Herald, velhos mapas e um exemplar de Bruxaria em Northamptonshire, de 1612, ajudaram-no a reconstruir parte da memória da cidade, que não fala, mas nos espreita continuamente a cada virada de página.

Além disto, um livro com cabeças falantes sempre merece ser conferido.


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