burburinho

kamchatka

cinema por Nicole Cabral

Harry (Matías Del Pozo) é um menino como todos os outros de sua idade. Vai a escola, gosta de jogos e de ver televisão. Seu pai (Ricardo Darín) é advogado, sua mãe (Cecilia Roth) trabalha na universidade, e a família é composta ainda por um irmão mais novo (Milton De La Canal). O que não é normal é a sua realidade. Em 1976, a Argentina caiu nas mãos da ditadura militar e milhares de cidadãos foram perseguidos e seqüestrados por serem contrários ao regime. Este era o caso dos pais de Harry que, sabendo que são procurados, decidem se esconder. Tiram os meninos da escola, abandonam sua casa e partem para um sítio fora da cidade, imaginando que o tempo resolverá a situação. Para o menino a situação é um jogo onde alienígenas invadem sua casa e por isso é preciso fugir, trocar nomes, viver uma nova vida. Para que a nova rotina não seja entediante, seu pai é parceiro em inúmeras partidas do jogo T.E.G. (versão Argentina do jogo War).

Produção argentina de 2001, Kamchatka é poético, sensível e inocente. Seu nome vem de um território do jogo (e também uma península real, no leste da Rússia) que atua como uma explicação sutil à história que mostra toda a ingenuidade e imaginação de uma criança perante os problemas do mundo, a iminência de uma vida de fugitivo, a falta de amigos e o medo de perder os pais, lembrando o filme italiano Concorrência Desleal, que retrata duas famílias que são separadas durante o domínio de Mussolini e que também é narrado sob a ótica infantil.

Escrito a quatro mãos por Marcelo Figueiras e Marcelo Piñeyro, o roteiro retrata um período difícil da vida de Harry, como a repressão da ditadura tomou a sua família e sua vida e as transformou por completo. Como o ponto de vista da história é o do menino, algumas analogias são feitas durante o filme para que o espectador perceba a realidade da época de forma mais ampla, já que Harry e seu irmão eram preservados por seus pais da verdadeira realidade. Uma dessas estratégias é a fascinação do garoto por Houdini, o Rei dos Escapistas (o garoto explica que Houdini não era mágico e sim um escapista).

A caracterização da situação argentina nos anos setenta foi muito bem feita e as atuações do elenco são surpreendentes, principalmente a do garoto Matías Del Pozo. Outro destaque é a fotografia do filme, que utiliza muitos tons fortes e azulados. Apesar de baseado em histórias pessoais que o diretor Pineyro vivenciou durante o período ditatorial da Argentina, o filme não cai na pieguice, e é suave e sutil. Um bom filme, justifica os vários prêmios recebidos (melhor roteiro em Cartagena e Havana, filme mais popular em Vancouver, entre outros), mesmo com alguns pecados, como a busca forçada da emoção do espectador e uma certa lentidão do desenrolar da história. Encanta pela simplicidade.


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