burburinho

djivan gasparyan

música por Luis Gustavo Claumann

Uma antiga lenda diz que os armênios teriam se apresentado perante deus somente depois do povoamento da terra estar concluído. Lamento, mas restam apenas estas pilhas de pedras, disse-lhes deus. Os armênios tiveram assim que se contentar com uma terra acidentada nos contrafortes do Cáucaso, sempre coberta de neve, hoje uma república independente da ex-União Soviética. Foi neste país distante que, em 1928, na vila de Solag, próxima da capital, nasceu Djivan Gasparyan, hoje reconhecido no mundo inteiro como o mais famoso músico da Armênia e a autoridade maior no duduk, um instrumento de sopro semelhante a um clarinete.

Há quem diga que o duduk tenha cerca de mil e quinhentos anos. Feito de madeira de pessegueiro, uma árvore considerada mítica pelos armênios, provavelmente originária do planalto de Ararat, o duduk era a flauta dos pastores. Mas o que o torna tão especial é a maneira como é tocado, a sua técnica de respiração contínua, que Djivan Gasparyan aprendeu ainda muito jovem. Começou por influência de seu pai, quando tinha apenas seis anos, embora o que o tivesse marcado e feito avançar na aprendizagem do duduk tenha sido o cinema. Djivan ficava fascinado com os músicos que acompanhavam os filmes e com a capacidade que tinham de tocar, apenas com o duduk, melodias românticas, tristes ou alegres conforme o desenrolar das cenas.

Descoberto em 1989 por Brian Eno, o músico chegou a gravar com o Kronos Quartet e a Orquestra Filarmônica de Los Angeles. Foi condecorado pela UNESCO em várias ocasiões - como em 1989, quando lançou um álbum dedicado às vítimas do terremoto na Armênia, intitulado I Will Not Be Sad in this World. Um trabalho muito conhecido também foi a trilha sonora de A Última Tentação de Cristo, em parceria com Peter Gabriel.

Em 1998, Djivan gravou o álbum Black Rock com o canadense Michael Brook, onde fundiu a música armênia ao experimentalismo ocidental. Esta parceria acabaria dando origem a participação do músico na trilha sonora de Gladiador, produção de Hans Zimmer. O mago das trilhas, por sinal, se curvou ao talento de Gasparyan na confecção de temas ora melancólicos, ora condizentes com o ritmo alucinante das imagens do filme.

Vale ressaltar ainda que Djivan Gasparyan é muito reverenciado em seu país, a ponto de ganhar uma marca de vodca em sua homenagem. Ao sorver a garrafa, o ébrio logo perceberá que por trás do gelo, em meio ao rótulo, está o busto do maior intérprete mundial de um dos mais planantes e introspectivos dos instrumentos conhecidos.


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