burburinho

escher e o rock

música por Ayrton Mugnaini Jr.

Muitos devem conhecer, mesmo sem se dar conta disso, o holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972), mestre da gravura em preto e branco e do ilusionismo visual por meio de metamorfoses e perspectiva, além de possivelmente o artista gráfico mais popular do mundo.

Uma de suas litografias mais famosas é Répteis, de 1943. Se você é fã de rock, talvez conheça o primeiro LP do grupo inglês Mott The Hoople, sem título, de 1969. Pois bem, a capa do disco nada mais é que esta litografia, levemente colorizada e creditada simplesmente a "Escher" (pelo menos ninguém plagiou ninguém).

Quem tentou ser mais honesto, mas foi camarada demais e se deu mal foi Mick Jagger, de acordo com Primitive Cool, biografia do cantor por Christopher Sandford. No mesmo ano de 1969, quando os Rolling Stones estavam gravando o LP Let It Bleed, Jagger teve a idéia de convidar Escher para fazer a capa, mandando-lhe um bilhete:

"Caro Maurits,
Já há algum tempo estou em posse de seu livro e ele nunca deixa de me impressionar (...) Acho seu trabalho simplesmente incrível e ficaria muito feliz em ver muito mais gente ver e conhecer e entender exatamente o que você faz. Marcamos a data de lançamento de nosso próximo LP para março ou abril, e estou tão ansioso quanto possível para reproduzir uma de suas obras na capa do disco. Você, por favor, poderia considerar desenhar uma "pintura" para ele, ou acaso teria alguma obra inédita que poderia considerar adequada?"

A resposta de Escher, encaminhada a Tom Keylock, agente de imprensa dos Stones:

"Há alguns dias recebi uma carta do Sr. Jagger pedindo-me para ou criar uma obra ou colocar à sua disposição obra inédita para reproduzir na capa de um disco. Minha resposta a ambas as perguntas é necessariamente não (...). A propósito, faça o favor de informar ao Sr. Jagger que para ele eu não sou Maurits, e sim, muito sinceramente, [assinado] M. C. Escher."

Imagine qual deve ter sido a reação de Escher (se é que ele ficou sabendo) ao ver o disco do Mott The Hoople em novembro daquele ano. E, ainda por cima, a litografia aparecia creditada no disco sem menção a seu título (Répteis) e descrita tão-somente como um "desenho".

Chamar gravuras tão intrincadas de meros "desenhos" pode ter sido o mais imperdoável para Escher, a julgar por uma de suas declarações em fins dos anos cinqüenta: "Estas gravuras (nenhuma das quais, diga-se de passagem, feita com intenção principal de criar 'algo belo') foram para mim muito penosas." Na mesma declaração, Escher prossegue: "É por isso que me sinto sempre um tanto deslocado no meio dos artistas gráficos meus colegas. Eles andam, sobretudo, em busca do 'belo'. Talvez eu aspire apenas o surpreendente e, portanto, esforço-me em induzir somente um sentimento de perplexidade em meu público."

Realmente, as gravuras de Escher surpreendem e intrigam, não somente pela temática surrealista (escadas e quedas dágua que nunca se sabe estarem subindo ou descendo), mas também pelo apuro técnico que imediatamente sugerem uma versão moderna de Albrecht Dürer ou Gustave Doré. Mas, apesar do virtuosismo de Escher, até os anos quarenta críticos e amantes da arte mais radicais demonstraram relutância em classificar sua obra como "arte", do mesmo modo que poucos consideram os romances policiais de Agatha Christie como "literatura". Um crítico resumiu perfeitamente: "A questão está em saber se seus trabalhos mais recentes podem ser classificados como arte (...) eles exigem uma forma de pensar que só se encontra em muito poucas pessoas." Sem dúvida, um grande elogio.


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