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quadrinhos por Rafael Lima

Laerte Coutinho, ou simplesmente Laerte, nasceu (em 1951) e cresceu "até 1.69m" em São Paulo, onde ainda mora. Cartunista, quadrinhista, redator, Laerte já completou mais de trinta anos de atividade em humor. Na indecisão entre jornalismo e música, acabou não se formando na faculdade, cuja maior herança foi o fanzine Balão, de alunos das escolas de comunicação e arquitetura e revelador de vários futuros nomes do desenho de humor nacional: os irmãos Caruso, Xalberto, Luiz Gê. A vocação tinha sido descoberta.

A década de 1970 serviu para Laerte aprimorar a técnica e definir a temática; como todo talento que não nasce pronto, foi preciso fazer muita ilustração para publicações de economia, como a revista Banas ou a Gazeta Mercantil - onde ficou por dez anos - inclusive os conhecidos retratos pontilhistas da última, muito material de comunicação para a imprensa sindicalista - leia-se: as ilustrações e vinhetas que, ainda hoje, se vêem em cartazes de sindicatos ou centros acadêmicos - pela Oboré, e muitas tiras para a revista Placar. Anos de formação, durante os quais Laerte ganhou seu primeiro prêmio, na inauguração do Salão de Piracicaba.

Nesse período, Laerte era filiado ao Partido Comunista e fazia de seu trabalho uma forma de influir na política. A situação se invertera na virada da década de 1980: já não o foco dos cartunistas a área política (o principal deles, Henfil, chegou a dividir aluguel com Laerte, a quem tutoreava) e Laerte, dos poucos que ainda carregava essa bandeira, preparava sua mudança de orientação: "já teve a minha fasezinha de comunista em que eu achava que as histórias e os cartuns serviam pra fazer a cabeça das pessoas, então a idéia era 'fazer cabeças', dar lições, dar aulas. E é uma coisa meio chata de se ficar fazendo. O que eu passei a fazer depois foi tentar extrair das situações e dos temas, minha posição pessoal nisso. Não posição no sentido de idéias fixas, sólidas e 'irremovíveis', mas como eu me sinto em relação àquilo". Dois fatores contribuíram para a significativa mudança de rumo na vida (separação da esposa, desligamento do PC, saída da Gazeta) que se deu no começo dos anos oitenta: a abertura política e o sucesso comercial da revista Chiclete com Banana.

Em 1986, o ambiente era propício para tiras em quadrinhos e Laerte começou a fazer uma das mais conhecidas, O Condomínio, curtição com o convívio urbano forçado em cidades grandes, explorando estereótipos. Era o tempo de Angeli, aliás parceiro de Laerte, tornar-se pop star com sua Chiclete com Banana; das Mil e uma Noites de Paulo Caruso, de Lor com sua Now sem Rumo, do Presidente Reis de Luiz Gê. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Ofeliano e Cinthia faziam o Leão Negro, Silvério fazia Urbano o Aposentado e ainda havia Fábrica Faglianostra em O Globo. A figura fundamental para Laerte nesse momento é Toninho Mendes, editor da Chiclete com Banana, que viabilizou financeiramente "que eu largasse a Gazeta e a Oboré e entrasse nos quadrinhos, que era o que eu tava a fim de fazer".

Mesmo que a tira tivesse divulgado enormemente seu nome, a grande importância daquela década foi ter aberto espaço e liberdade para que ele experimentasse em histórias longas, as mais desafiadoras, para ele; foi quando desenhou roteiros em parceira com Glauco e Angeli, para as respectivas revistas deles; quando fez suas melhores histórias longas - como estava produzindo para a revista dos outros, não tinha tanta pressão nos prazos - e quando criou os Piratas do Tietê, os mesmos que nomeariam sua futura publicação, em 1990. Um galeão de autênticos piratas em pleno Rio Tietê: um achado de fantasia, urbanidade e humor negro.

São da década de 1980 momentos antológicos do quadrinho nacional, colecionadas nos álbuns Piratas do Tietê e Outras Barbaridades e Histórias Repentinas: A Noite dos Palhaços Mudos (onde explora a pantomima circense de forma extraordinária), A Insustentável Leveza do Ser (surpresas a cada segundo, em ritmo de desenho animado, reconhecida como a melhor HQ de Laerte), Os Homens-Pizza, Crise, Lingerie, Fadas e Bruxas, O Poeta (com participação especial de Fernando Pessoa), Revelação ou A Terceira Margem do Rio, onde ocorre o improvável encontro dos piratas com o Batman.

O editorial do primeiro número da Piratas do Tietê é quase uma declaração de princípios, notável por mostrar o quanto Laerte tinha ampliado seus horizontes desde o programa da luta de classes: "Muito bem, o país vive um momento difícil. Nós aqui vivemos um momento difícil há muito mais tempo e não lançamos nenhum plano isso ou plano aquilo. (...) Afinal de contas, qual é o objetivo geral? Sim, qual é o plano do povo brasileiro? Lavar a égua ou lavar o carro no domingo? Mais respeito e menos arrocho ou mais sabor com menos alcatrão? Acertar as contas com o mundo ou acertar o cartelão do baú? Como vêem, existe sempre uma forma cretina de 'melhorar a situação'. Eu pensei muito e cheguei a uma conclusão: nós não somos um povo cretino. Não, nós somos legais. É sério, você pode se olhar no espelho e dizer: até que nós somos legais. Já passamos por poucas e boas e olha só, ainda somos legais. Mas não baixa a guarda não. Não se esqueça de quanto ainda falta até a gente virar uma coisa apresentável. Tome um banho. Vista uma roupa mais parecida com você mesmo. Cumprimente os vizinhos. Pare de aceitar bala de menta em vez do troco certo."

Embora tenha durado mais de um ano, a revista acabou porque não compensava financeiramente a trabalheira da edição, o que fez Laerte acabar voltando às tiras, reaproveitando idéias que haviam surgido ao longo dos últimos tempos e adaptando outras para o formato. Assim, começou a produzir tiras dos Piratas do Tietê e Los Três Amigos para a Folha de São Paulo. Como em O Condomínio, nunca se prendeu a personagens, criando novos toda vez que sentia mostras de esgotamento. Reconhece que trabalha "mais com situações do que com personagens" embora saiba que são "um elo muito forte com o leitor". Essa dificuldade com personagens - "a história é mais importante do que o personagem e, se eu preciso desse personagem uma outra vez, eu me perco com ele" - acabaria sendo usada como trunfo nas criações dos anos 1990, Overman e Hugo.

Antes disso, a convite de Cláudio Paiva, Laerte viria a se tornar redator de televisão: primeiro, para os estertores do TV Pirata; depois, para o infantil TV Colosso (inclusive fazendo o roteiro do filme Super Colosso) e para o seriado Sai de Baixo. Foi quando sentiu na pele a dificuldade de transposição do papel, onde o tempo está relacionado com o espaço. Esta experiência motivou-o a se arriscar no teatro, escrevendo uma peça para os Piratas do Tietê. Cumpre ressaltar que, apesar do trabalho para a televisão, Laerte nunca abandonou por completo os quadrinhos; prova maior é que foi premiado em todas as edições do troféu HQ Mix.

Enquanto Overman é uma sátira desvairada dos clichês de super-heróis, Hugo "é um exemplar da raça humana, não muito exemplar. Os grandes temas o enchem de dúvidas; os pequenos, também. Tem um carro, um computador e uma namorada chamada Beth, estudante de psicologia." Foram os dois suportes perfeitos para que Laerte pudesse dar vazão à toda criatividade que nenhuma revista podia absorver (as poucas histórias longas a partir de então foram feitas para a revista eletrônica Cybercomix, exclusivamente na internet, sinalizando inclusive a força dessa mídia como novo mercado), inserindo o absurdo no cotidiano: "acabo pensando em situações que partem da realidade tal como a gente vê, né, uma realidade 'realista', e me interessa que a história caminhe por um certo absurdo. Então essa mistura de elementos de fantasia é um dos jeitos de trabalhar essa linha.", e conjugando humor e idéias: "tenho um critério que faz com que só fique satisfeito se a compreensão pelo leitor está dúbia. De certa forma, jogo com coisas que poderiam ser óbvias, mas não são."; "[a piada] tem que provocar a reação humorístico-cabeçuda que lhe cabe, sendo que nem sempre isso significa arrancar gargalhadas."

Hugo, particularmente, faz rir pela flexibilidade com que aparece nas tiras (ora vira alquimista, ora abandona a civilização e vai morar no campo, ora traveste-se de mulher), ao mesmo tempo que reflete problemas que poderiam ter ocorrido com qualquer leitor. É particularmente notável a maneira como o personagem entra em contato e se embanana com as novas tecnologias ("O computador é legal, agora, o mais necessário são amigos que entendem de computador. Pra mim é que nem carro. Eu nunca vou entender de motor de carro."): descola um mascote virtual, cria um robô-cachorro por mascote, detona um iPod. É um retrato perfeito do autor, sempre se adaptando às oportunidades que o tempo traz, agora produzindo para a internet, ontem fazendo histórias longas, antes colocando seu traço a serviço da política, sempre produzindo humor.

Só não me atrevo a dizer que Laerte é o maior quadrinhista brasileiro de humor vivo porque Luiz Gê não morreu.

(As declarações deste texto foram retiradas de entrevistas do Laerte para as revistas Panacea, Scream & Yell, Cybercomix e para o site Alan Moore, Senhor do Caos.)


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