burburinho

betty carter

música por Ayrton Mugnaini Jr.

Betty Carter não é apenas uma das maiores cantoras de jazz, ela é a própria versatilidade com qualidade, e falar dela é falar de tanta coisa que leva a um agradável dilema: começar por onde? Pelo começo, diriam os mais irônicos. Betty nasceu Lily Mae Jones em Flint, Michigan, a 16 de maio de 1930, começou a cantar na banda de Charlie Parker, tendo de falsificar a idade por ser menor, e infelizmente faleceu em 26 de setembro de 1998, vítima de cân... Ah, não, assim fica muito didático, isto não é uma enciclopédia, ora bolas. Que tal, então, um enfoque mais subjetivo?

Este que vos escreve teve a honra e o prazer de presenciar Betty em duas de suas quatro estadas no Brasil, assistindo-a no Free Jazz de 1993 e entrevistando-a durante sua temporada na casa noturna paulistana Bourbon Street no ano seguinte (suas outras vindas foram em 1980 e 1982, e ela respondeu à inevitável pergunta, "I'd like to know more Brazilian music"; durante o primeiro show no Bourbon ela disse que "é a primeira vez que realmente passo tempo no Brasil, três dias no Rio, três dias em São Paulo, Santos..."). Os shows de Betty eram exemplos vivos (sem trocadilho) do que diz o livro norte-americano Vocal Improvisation: An Instrumental Approach (de Patty Coker e David Baker, publicado em 1981), altamente recomendável para vocalistas de jazz, e que cita Betty Carter como modelo a ser seguido, exemplificando com uma faixa de um dos quatro LPs que ela lançou em seu próprio selo.

Betty? De onde veio o nome artístico? Foi o band-leader e vibrafonista-mor Lionel Hampton, de cuja big band ela foi vocalista de 1948 a 1951 (embora ambos não se dessem muito bem e ela chegasse a ser despedida por ele sete vezes, mas sempre chamada de volta por cantar otimamente) — não, ela não foi descoberta por ele; "não fui descoberta por ninguém" — , que começou a chamá-la de Betty-Be-Bop, num trocadilho com Betty Boop, aquela cantora de desenho animado (e que seria imbatível nos risinhos, gemidos e suspiros até o surgimento de Fafá de Belém). Lilly Mae a princípio não gostou, mas, você sabe, quando não se gosta de um apelido, é aí que ele realmente pega. E de onde veio o sobrenome Carter? Nem ela sabe; "talvez de algum namorado..."

Pois bem, Betty começou a virar ela mesma a namoradinha dos fãs de jazz com o primeiro LP, Betty Carter With Ray Bryant, em 1952, no selo Epic. Daí em diante foram só elogios, como cantora e compositora (I Can't Help It, Tight, Look What I Got, New Blues (You Purrrrrrrrrr), Sounds (Movin' On) — esta chegou a ocupar um lado inteiro de um de seus LPs — , Open The Door e a preferida da própria Betty, Thirty Years), colecionando grandes discos (inclusive um em dupla com ninguém menos que Ray Charles em 1961, Ray Charles And Betty Carter) e prêmios (como um Grammy pelo disco Look What I Got, de 1980, e a revista Down Beat só parou de premiá-la sistematicamente como melhor cantora de jazz em 1994, por culpa de Cassandra Wilson).

Basta atentar para os dois primeiros versos da música que funciona tanto como seu prefixo e autobiografia musical, I Can't Help It ("I can't help it, that's the way that I am / I can't help it, I can't sham", "Não posso fazer nada, é assim que eu sou / Não posso fazer nada, não sei fingir") para percebermos um detalhe nada desprezível: o que Betty tem de versátil e talentosa, ela tem de individualista, sempre avessa a seguir modas ou o caminho mais fácil. Embora gostasse de ter gravado no selo Verve, um dia ela haveria de ter um selo próprio. E assim nasceu o Bet-Car, que durou de 1971 a 1988 (ah, sim: a faixa recomendada pelo livro de improvisação vocal citado acima é do LP Betty Carter, de 1976, e trata-se de Wagon Wheels, autoria de Peter DeRose, o mesmo de Deep Purple e outros clássicos), até que Betty decidiu vender o acervo do selo à PolyGram, por onde saiu um de seus últimos discos, Feed The Fire, gravado ao vivo. Disco este que, aliás, foi precedido por uma edição surpresa, surpresa até para a própria Betty — um disco pirata lançado quinze dias após um show seu nos EUA; Betty e a PolyGram chegaram a entrar na justiça e ganharam a causa.

De Betty Carter temos uma ótima opção nacional em CD, I Can't Help It (BMG-Ariola), reunindo gravações de 1958 e 1960 (nos selos Peacock e ABC, mais tarde comprados pela Impulse; as faixas da ABC vêm de um LP apropriadamente intitulado The Modern Sound Of Betty Carter). Estas gravações trintonas permanecem tão jovens quanto os músicos com quem Betty preferiu tocar ultimamente (aliás, desde os anos setenta ela se apresentava com um trio, cuja formação nos shows no Brasil em 1994 foi Xavier Davis ao piano, Eric Revis ao contrabaixo acústico e Will Terrill à bateria); segundo ela, jovens tocam com mais garra e entusiasmo, "I like to have fun". Realmente, houvesse fôlego para trabalhar com Betty, um verdadeiro dínamo de energia e bom humor, no palco ou fora dele. E até que ela se cuidava bem, porém não muito: sua receita para manter a voz em boa forma era repousar e cantar pelo quarto, sem vocalises, escalas ou muita prática formal. Como bem resume o título de uma música de Norman Mapp gravada por Betty, "jazz ain't nothin' but soul", verdade tão óbvia que muitos nem percebem.

Tão óbvio quanto verdadeiro é dizer que Betty Carter foi uma das últimas grandes cantoras de jazz da velha guarda, lista que infelizmente vem diminuindo, com a recente perda de Carmen McRae. E o repertório de Betty, além de composições próprias, não tem medo de incluir músicas celebrizadas por outras grandes cantoras, como Stormy Weather (de Harold Arlen/Ted Koehler), propriedade de Lena Horne; Mean To Me (de Roy Turk/Fred Ahlert), para sempre associada a Sarah Vaughan; e Lover Man (de Ram Ramirez), um dos hinos de Billie Holiday. Betty realmente toma conta de tudo o que canta, seja jazz ou pop — e, note bem, sendo cantora cem por cento jazzista, transformava a canção mais pop em jazz, e do melhor: Every Time We Say Goodbye de Cole Porter, Remember de Irving Berlin, My Favorite Things da Noviça Rebelde (sim, The Sound Of Music de Richard Rodgers/Oscar Hammerstein), Smile de Charlie Chaplin... Muitos fãs de jazz até hoje não perdoam Ella Fitzgerald, por exemplo, pela heresia de cantar clássicos da Motown, Beatles e Cream; Betty é "uma das poucas verdadeiras cantoras de jazz em termos de improvisação e feeling", como bem resumiu nos anos setenta o pesquisador e grande divulgador de jazz Leonard Feather (infelizmente falecido em 1994, o que já é outra matéria).

Betty aproveitava para mostrar em seus shows tudo o que sabia (e o que boa parte dos músicos deveria saber) sobre dinâmica, indo de uma versão de andamento extremamente lento para You Go To My Head ao be-bop prestíssimo de I Don't Want To Set The World On Fire, que, até parece incrível, nasceu tão cadenciada, bonitinha e quadradinha na interpretação do grupo vocal Ink Spots em 1941 (e seus autores, Bennie Benjamim e Sol Marcus, são os mesmos da clássica Don't Let Me Be Misunderstood, gravada por tanta gente, a começar pela "sacerditosa do soul", Nina Simone). Tudo pontuado com tiradas espirituosas e espontâneas como "Vocês são maravilhosos! Não posso ficar aqui para sempre, mas, enfim..." (na estréia de sua temporada no Bourbon) ou "Não sei o que vou fazer, mas decidirei dentro de um minuto" (no Free Jazz).

E Betty, uma das poucas cantoras que por consenso estão entre as melhores do mundo, permaneceu um bom tempo neste mesmo mundo que fez questão de conquistar pessoalmente, desde sua temporada de um mês no Japão com o saxofonista Sonny Rollins em 1963 e os primeiros shows em Londres, no clube da cantora inglesa de pop e jazz Annie Ross, no ano seguinte. Para muitos, ela até poderia ter seguido o exemplo de Dionne Warwick e vir morar no Brasil. Parafraseando Betty, "We can't help it..."


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