burburinho

guerra dos mundos

cinema por Luis Gustavo Claumann

Ray Ferrier (Tom Cruise), um operário divorciado, requisita passar tempo a sós com os dois filhos, o adolescente Robbie (Justin Chatwin) e a pequena Rachel (Dakota Fanning) e se mostra um pai inadequado, uma vez que nem ex-mulher, nem filhos confiam nele, forçando uma intimidade que não existe. Quando os espectadores estão se acostumando com a narrativa e tentando destrinchar os relacionamentos, o surgimento de uma gigantesca máquina de guerra, que emerge do chão e incinera tudo o que encontra, é o primeiro de tantos perigos que Ray e os rebentos terão que enfrentar para se manter o mais longe possível das armas extra-terrestres e, por conseqüência, vivos.

O que poderia ser apenas mais um esquecível filme de ação norte-americano, repleto de cenas inverossímeis e/ou ufanistas, logo apresenta algumas surpresas. Ao contrário do que se poderia imaginar, o filme não trata Ray Ferrier como um grande herói capaz de atos impossíveis pra salvar o mundo sozinho. Isto pode frustar os que aguardam algo surpreendente do mocinho, mas oferece uma necessária sensação de realidade ao filme, principalmente em se tratando de um tema já desgastado e sem credibilidade.

Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005) apresenta características que fizeram a fama do diretor Steven Spielberg, tais como a cena com a criança indefesa, os ângulos de câmera desfocados e até mesmo a câmera com a visão do predador analisando a vítima. Para ficar completo, faltou apenas algum perdido observar os alienígenas, tirar os óculos e ficar de boca aberta com cara de abobado, como aconteceu, por exemplo, em Contatos Imediatos do Terceiro Grau e em Jurassic Park, produções conhecidas do diretor. Para fazer a história o mais real possível, Spielberg criou cenários de deixar o mais cético boquiaberto, como é o caso da residência de Ferrier, que aparece arrasada após a queda de um avião no quarteirão. A aeronave usada na cena é verdadeira, assim como a fumaça, as meias e o ursinho de pelúcia que saem de uma mala entreaberta.

Diversas outras cenas do filme, contudo, primam pela sutileza. Quando os humanos refugiados se enfrentam numa tentativa de sobreviver alguns minutos a mais, a família Ferrier é a única que possui um carro funcionando e isso a transforma imediatamente em alvo dos que estão atravessando o país a pé, em busca de segurança. As seqüências que tratam do assunto são as melhores e mais tensas do filme, muito mais impactantes que qualquer arma letal de outro mundo. Sem alienígenas à vista, mostram o ser humano, tomado pelo desespero, como a maior ameaça para si mesmo. Um pouco depois, a apresentação de um refugiado enlouquecido (Tim Robbins) no porão de uma casa reforça a idéia com competência.

Steven Spielberg tinha já há vários anos a intenção de adaptar para o cinema o livro Guerra dos Mundos, de H.G. Wells - transformado numa novela realista de rádio por Orson Welles, que criou um pandemônio em algumas cidades norte-americanas na década de trinta -, mas teve que adiar o projeto durante algum tempo devido ao lançamento de Independence Day (1996). O final da película inclusive pode induzir os mais desatentos a compararem os métodos e as fragilidades dos alienígenas das duas produções. Mas a verdade é que, enquanto em Independence Day a solução apresentada beira o ridículo, em Guerra dos Mundos há um enigma que fará muita gente matutar sobre o assunto por algum tempo. Neste caso, méritos de Wells, com a ajuda providencial da narração de Morgan Freeman, que resgata o clima do primeiro filme, rodado ainda na década de cinqüenta.


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