burburinho

os outsiders da Hanna-Barbera

televisão por Nemo Nox

Para muita gente, os desenhos animados dos anos sessenta, especialmente dos estúdios Hanna-Barbera, serão sempre lembrados pelas principais famílias da época, os Flintstones (The Flintstones, 1960) e os Jetsons (The Jetsons, 1962). Não podemos esquecer, porém, que nem só de histórias familiares e conservadoras foi feita a década, que, de acordo com algumas interpretações, nos apresentou também muitos outsiders sem qualquer preocupação em defender o status quo.

Uma fórmula freqüentemente usada pelos estúdios Hanna-Barbera foi a do cavaleiro andante, um herói que perambulava pelo mundo em busca de aventuras acompanhado de um fiel escudeiro: a tartaruga Touché, com chapéu e espada de mosqueteiro, e o cão Dum Dum (Touché Turtle and Dum Dum, 1962); o leão Lippy e a hiena Hardy (quem não se lembra do seu "oh, vida! oh, azar!") formavam uma dupla inspirada nos andarilhos da época da depressão (Lippy the Lion and Hardy Har Har, 1962); o hipopótamo Peter Potamos, vestido como explorador do século XIX, viajava pelo tempo a bordo de um balão com o macaquinho Tico-Mico (The Peter Potamus Show, 1964). Nenhum destes personagens se encaixava nas estruturas sociais tradicionais, circulando sem residência fixa, sem famílias e sem empregos, sempre on the road como Jack Kerouac.

Se os novos cavaleiros andantes da animação propunham um modelo bem diferente da rotina casa-família-emprego dos Flintstones ou dos Jetsons, os estúdios Hanna-Barbera tinham ainda outro tipo de outsider para apresentar. O gorila Maguila (The Magilla Gorilla Show, 1963) residia na loja de animais de estimação do senhor Peebles, que reclamava das despesas com a sua alimentação e tentava sempre se livrar dele, invariavelmente sem sucesso. Por uma razão ou outra, todas as vendas acabavam desfeitas e Maguila retornando à vitrine da loja, para o desespero do senhor Peebles. Ironicamente, a única compradora que realmente queria o gorila, a menininha Ogee, não tinha dinheiro suficiente para comprá-lo. Enquanto Maguila mantinha o bom humor e tentava ignorar sua situação de indesejado, outro animal não se conformava com o cativeiro. O jacaré Wally (Wally Gator, 1962) morava no jardim zoológico capitaneado pelo senhor Twiddle, que o tentava manter do lado de dentro dos muros. Wally, porém, tinha outros planos e considerava sagrado seu direito de ir e vir, inventando sempre algo para fazer fora do zoo. Talvez não por coincidência, já nos anos setenta, quando a fórmula foi repetida (sem muito sucesso) com O Urso do Cabelo Duro (Help! It's The Hair Bear Bunch, 1971), os ursos protagonistas tenham sido caracterizados como hippies.

A metáfora era o principal recurso para falar dos outsiders, fossem aventureiros e andarilhos aparentados a Kerouac ou indivíduos aprisionados num sistema que lhes foi imposto contra a vontade. Porém, o personagem mais anti-establishment dos estúdios Hanna-Barbera vivia literalmente à margem da sociedade, aproveitava-se de vários subterfúgios freqüentemente ilegais para manter um certo nível de vida, e tinha como principal diversão perturbar um policial, corporificação mais próxima do autoritarismo do sistema. O gato Manda-Chuva (Top Cat, 1961) morava num beco de New York com seus amigos Xuxu, Batatinha, Espeto, Bacana e Gênio (em inglês, Choo Choo, Benny, Spook, Fancy Fancy e The Brain), e tinha sempre um plano aliando a lei de Gérson ("gosto de levar vantagem em tudo, certo?") com a lei do menor esforço e tentando escapar da lei do mais forte, representada aqui pelo vigilante porém ineficiente guarda Belo (em inglês, officer Dibble, que rima com outros personagens de papel metaforicamente semelhante, Peebles e Twiddle). Os trinta episódios de Top Cat, vistos de um certo ângulo, podem ser tão representantes da contra-cultura dos anos sessenta como o livro emblemático de Abbie Hoffman, Steal This Book. E tudo isto produzido pelos mesmos estúdios de onde saíram os familiares e conservadores Flintstones e Jetsons.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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