burburinho

y: the last man

quadrinhos por Ricardo Bittencourt

Uma receita rápida de sucesso para um gibi é pegar uma fantasia adolescente qualquer, amplificá-la, e depois distorcê-la. Vejamos o caso do Homem-Aranha, por exemplo. O nerd tímido e pacato, de poucos amigos, secretamente é um fortão que desce porrada nos desafetos, e ainda por cima namora uma supermodelo. Sim, é uma fantasia adolescente. Mas nem tudo são flores, pois com os grandes poderes, vem grandes responsabilidades, e tudo o mais. Agora ele não consegue mais marcar um encontro, porque sempre surge um inimigo para pegá-lo, e não tem paz com sua família, pois sempre estão os ameaçando.

Y: The Last Man usa o mesmo modelo. Mas a fantasia adolescente em questão é ainda mais ingênua. O protagonista da história, dessa vez um nerd agorafóbico, descobre que uma catástrofe, de origem desconhecida, eliminou todos os outros portadores do cromossomo Y do planeta. Efetivamente, agora o cara é o último homem do planeta. Só não digo que é o último macho do planeta, pois também sobreviveu o animal de estimação dele, um macaco chamado Ampersand (eu disse que o gibi era surreal).

Essa premissa tinha tudo pra dar errado, mas funciona, e funciona supreendemente bem! O autor fez uma boa pesquisa sobre os efeitos que uma catástrofe como essa podia ter. Basta lembrar o caos em que ficou o mundo depois que duas torres caíram, e amplificar isso, pra imaginar como seria se metade do mundo estivesse morta. As conseqüências imediatas são claras: praticamente todos os aviões que estavam em vôo caem, as geradoras de energia colapsam, as telecomunicações entram em pane.

Mas é a longo prazo que o impacto na ordem mundial é realmente sentido. Grande parte das religiões colapsa, já que morreram, ao mesmo tempo, todos os padres católicos, muçulmanos e judeus ortodoxos. Se antes do cataclisma, a potência militar eram os EUA, no mundo pós-homens é Israel - um dos poucos países que efetivamente tinha mulheres servindo no exército. E a guerra armamentista mudou de foco. Não foram apenas os machos que morreram, todo o sêmen estocado também se foi. Então, aquele que tiver controle do último homem do planeta, também terá o único exército capaz de aumentar o número de suas tropas!

Sabendo disso, o que restou do governo norte-americano coloca o infeliz protagonista sob vigilância, e manda um grupo atrás de uma cientista que, segundo os relatos da inteligência, estava próxima de conseguir o clone humano. Com essa premissa, a série deslancha, e torna-se uma mistura de road movie com Além da Imaginação, onde o grupo percorre o que restou da civilização, vendo as conseqüências da tragédia.

É claro que não falta bom humor na série. No caminho eles encontram uma velhinha, que ficou muito feliz com o ocorrido: metade dos ratos na casa dela morreu. Em outro local, eles encontram um grupo teatral que vaga pelas cidades, levando entretenimento aos sobreviventes. Mas, veja, todos os sobreviventes são mulheres, e a única coisa que elas querem é uma encenação que mostre o que iria acontecer no último capítulo da novela.

Os personagens também são muito bem construídos. O protagonista, por exemplo, é um sujeito romântico e apaixonado pela sua noiva, que estava na Austrália no momento do expurgo. Mas manter-se fiel a ela, num mundo onde só há mulheres, não é uma tarefa exatamente simples, ainda mais quando ele nem sequer sabe se ela está viva ou não. E sobreviver nesse mundo pós-apocalítipco fica bastante difícil, quando a única profissão que ele dominava era a de mágico de salão.

Sendo um gibi da Vertigo, seria de se esperar um desenho mais alternativo e pouco convencional. Mas a arte de Pia Guerra é incrivelmente limpa, lembrando até mesmo os desenhos do Homem-Animal, no início da Vertigo. O roteiro de Brian Vaughan lhe garantiu três indicações ao prêmio Eisner de 2005 (melhor gibi, melhor arco de histórias, melhor escritor), e a premissa já foi até comprada para um futuro filme em Hollywood. É sem dúvida uma série imperdível: corram para as importadoras, ou canais alternativos de distribuição, pois é um pecado essa série não ser publicada aqui no Brasil.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
Copyright © 2001-2005 Nemo Nox. Todos os direitos reservados.