burburinho

peter pan

livros por Marcus Vinicius Garrett Chiado

O enredo e os personagens são velhos conhecidos de nossos pais e avós, e até mesmo de nós. O menino que não quer crescer, o pirata desfalcado da mão direita, os Garotos Perdidos, Wendy. A ilha, povoada de criaturas ímpares, tais como sereias, fadas e selvagens; conhecida de todos como a Terra-do-Nunca. A obra Peter Pan, escrita por James Barrie no início do século XX, dispõe de diversas versões em desenho animado, em quadrinhos e em filme, portanto, comecei a lê-la com vaga idéia do que encontraria nas respectivas páginas. As peripécias de Pan, devo dizer, surpreenderam-me. Ao invés de história-da-carochinha, encontrei um texto alegórico sobre a difícil arte de crescer, de renovar-se e de se viver a deliciosa aventura da vida.

Wendy é a filha mais velha dos Darling, família mediana de Londres cujo pai procura vencer na vida. A menina tem por irmãos João e Miguel, e uma cadela, Naná, como babá. Certa noite, povoada de "sonhos" de um menino um tanto quanto diferente e especial, Wendy é convidada por ele a deixar o confortável lar e enveredar-se pelo Céu, a voar, em direção à Terra-do-Nunca, uma ilha especial comumente visitada, em sonhos, por crianças. Ela e os irmãos mais novos, ensinados a voar por Peter ("basta que pensem em coisas boas"), chegam àquele local distante e descobrem um universo de seres magníficos, formidáveis. Wendy passa, então, a ser a "mãe" dos Garotos Perdidos, um bando de sete meninos chefiados por Peter e que moram em uma casa subterrânea na floresta.

O contraponto de Pan é um pirata, o temível James Gancho, distinto cavalheiro inglês de tez morena, de olhos azuis e obcecado por boa educação, que comanda uma trupe a bordo do temido e sombrio navio Jolly Roger. Gancho perdeu uma parte do braço direito em uma luta de espadas contra Peter. O braço, devorado por um crocodilo gigante, e um gancho afiado no lugar da mão; fato que metaforicamente ajudou a remover - "mecanicamente" - o pouco de humanidade do coração do lobo do mar. Gancho nutre, em uma visão imediatista, um ódio irracional em relação ao menino, contudo, a natureza de tal sentimento é, na verdade, de caráter intelectual: ele não consegue compreender, por mais que se esforce, o sorriso soturno e o olhar maroto de seu desafeto. Juntos, Wendy, Pan, Sininho e os Garotos Perdidos passam por muitas aventuras e desventuras até a conclusão do livro.

O texto, embora simples, está impregnado de simbologia e de imagística. Ora é teatral (música e dança), ora é minuciosamente descritivo, ora é metalinguístico (o faz-de-conta sob e sobre o faz-de-conta), ora requer participação do leitor ("se você acredita, bata palmas") e ora revela um caráter sexual edipiano centrado na personagem de Wendy. Alegorias à parte, o lado brilhante de Peter Pan tem a ver com a "interiorização" da Terra-do-Nunca - e dos respectivos habitantes - no difícil dilema da vida adulta e do abandono das verdades incontestáveis, deliciosas, da infância. Prefiro não crer na opinião costumeira por meio da qual Pan é o "garoto bonzinho que existe em cada um de nós", aquele que nos faz sorrir e, por conseguinte, ver o lado "bom" da vida. Isto simplificaria em demasia o trabalho de Barrie, sinceramente. Afinal, as crianças são "alegres, inocentes e desalmadas".

Freqüentemente somos, sim, Peter Pan, mas também somos o Capitão Gancho, a fada Sininho, as sereias misteriosas, os índios, João e Miguel, e todas as particularidades da ilha fantástica; encarnamos o arquétipo da Terra-do-Nunca. A luta constante lá existente é o embate do Homem, em maior ou em menor grau, o "combate" para que sejamos indivíduos únicos e sentientes, e que se caracteriza pelo equilíbrio entre o real, o irreal e o surreal, caso exista realmente tal simplificada definição psicológica. É óbvio, também, que Barrie impregnou sua obra com a fé. Vê-se a fé em toda a parte. É ela, aliás, que provoca no leitor a vontade de acreditar na natureza, por exemplo, dos Garotos Perdidos; de modo que os meninos não sejam apenas "crianças que cairam dos carrinhos de bebê em Kensington Park".

Você tem fé? Mesmo? Então saberá que a Terra-do-Nunca existe. Ela surge quando nos encontramos naquele estágio de sono leve, logo antes do despertar, em que estamos sonados em condição de sonhar, mas alertas para que não se perca a hora do trabalho. No "lusco fusco" do fim da madrugada e do começo da manhã está ele à nossa espera: o jovem Peter Pan, que nunca envelhece e que jamais cresce. Mas é preciso acreditar. Você tem fé?


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