burburinho

o correio aéreo francês e a escala florianópolis

miscelânea por Luis Gustavo Claumann

Um hangar. Um relógio. Um balcão. E a campina alta do Campeche. Era assim o primeiro aeroporto de Florianópolis, entre 1927 e 1939. Os moradores da antiga Vila do Pontal, hoje Campeche, acompanhavam o sobrevôo dos aviõezinhos, evitando o Morro do Lampião, descrevendo uma curva suave sobre o mar, antes de descerem no campinho, eriçando o matagal e polarizando a atenção da criançada.

Eram os Breguet da Societé Latécoère, a companhia privada comissionada pelo Estado francês para fazer a linha aeropostal Toulouse-Dakar-Buenos Aires. O bairro do Campeche, hoje com uma população fixa próxima de quinze mil pessoas, quase não guarda vestígios físicos da passagem dos franceses. Mas o passado se faz presente em nomes como o do morro já citado, herança das luzes dos franceses em frente ao "campo de aviação", ainda chamado assim.

Quase todos os poucos habitantes do Campeche dos anos vinte e trinta se envolveram com as atividades do campo de aviação. O choque cultural bem que existiu. As mulheres francesas ensinaram as nativas a fazer hortas de fundo de quintal, e também chocaram os moradores do Campeche com seu hábito de tomar banho de mar de maiô, até então desconhecido na Ilha de Santa Catarina. No máximo, as pessoas caminhavam na praia, de roupa, mas ninguém tomava banho de mar, nem no verão.

Outra excentricidade francesa foi protagonizada pelo último administrador do campo de aviação, Monsieur Joseph Jacquinot. Ele costumava caçar jacarés então existentes na lagoa próxima ­ e os comia! Jacquinot chamava ainda mais a atenção porque ia caçar todo paramentado, usando calças curtas, chapéu, bota e espingarda. Era uma figura um tanto esdrúxula para os pescadores.

Em 1939, os franceses precisaram retornar à pátria para ajudar a combater Hitler, mas o aeródromo do Campeche continuou funcionando até 1949, operado pela Pan Air do Brasil. O aeroporto que não existe mais foi o primeiro de Santa Catarina de onde também embarcavam passageiros.

Um dos mais ilustres pilotos da época foi Antoine de Saint-Exupéry, na época com 29 anos. Era grande amigo dos pescadores, com quem convivia a relação dos simples e dos despojados de soberba, dividindo com eles carteiras de cigarros Gitanes e acompanhando a pesca de corvinas, pampos e parus, que depois eram preparados em caldos temperados com alfavaca, acompanhados de pirão. O décor ainda está lá, com o mesmo vento Sul ouriçando as mesmas campinas que serviam de regaço aos aviões, cujas carlingas hospedavam as figuras lendárias de Exupéry, Henri Guillaumet e Jean Mermoz.

O escritor de O Pequeno Príncipe faz referência à "Escala Florianópolis", na página 64 de Vôo Noturno, obra onde enfatiza as dificuldades dos primeiros vôos de longa distância realizados à noite. Sua descrição de uma tempestade que toma conta do trajeto do Correio da Patagônia alia lirismo a um certo suspense. A linguagem simples e poética, aliás, é uma característica do autor e perpassa toda a sua obra.

Aventuras como passar dias no deserto por causa de um acidente, sem comida e água e sofrendo alucinações, ou conviver durante uma semana com beduínos, adotando integralmente seu estilo de vida, são descritas em Terra dos Homens, o livro mais inspirado em suas próprias experiências. Esse e outros trabalhos também trazem reflexões acerca da condição humana, dos valores e dos modos de vida. É que o espírito de Exupéry também voava quando ele pilotava um avião. E a perspectiva que ele, do ar, adquiria da terra, colaborava para isso.

Naquela época, os aviões passavam mais tempo rentes ao solo, pois os vôos eram executados praticamente na dependência exclusiva da habilidade dos pilotos, sem os sofisticados radares e aparelhos que os monitoram hoje em dia. Em Terra dos Homens, Saint-Exupéry menciona, entre seus pontos de referência de chegada a uma certa cidade, três laranjeiras alinhadas! Voar, nas décadas de vinte e trinta, era bem diferente de agora.

De todo modo, ainda hoje, convido a todos que tiverem a oportunidade de visitar a Praia do Campeche, para que deixem a imaginação voar. Com um pouco de sorte, uma pitada de magia, e alguns goles da maldita, logo é possível ouvir o ronco dos motores daqueles aviões que por muitos anos fizeram parte da paisagem. Os espíritos dos bravos homens que cruzavam os oceanos em máquinas frágeis ainda devem passar por ali em noites de lua cheia. Atenção, pois, se não mais que de repente, um sotaque francês soar em meio ao vento.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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