burburinho

no coração do mar

livros por Luis Gustavo Claumann

Se você gostou de Moby Dick, o clássico de Herman Melville, ou se ficou impressionado com o famoso caso dos Sobreviventes dos Andes, onde o canibalismo foi a única saída encontrada por alguns humanos para sobreviver, então deve procurar um livro chamado In The Heart of the Sea, escrito por Nathaniel Philbrick. A versão brasileira ganhou tradução literal do título e pode ser encontrada como No Coração do Mar (Companhia das Letras, 2000). O livro é o fruto de uma pesquisa do autor sobre a terrível história dos sobreviventes do naufrágio do navio Essex, destruído por um cachalote (uma baleia, tal qual a Moby Dick).

O episódio ocorreu em novembro de 1820, um acontecimento tão comentado nos EUA quanto o naufrágio do Titanic no século XX. A semelhança com o drama de Moby Dick não é mera coincidência, pois foi neste fato, amplamente noticiado pelos meios de comunicação da época, que Herman Melville inspirou-se para escrever o livro que se tornou um dos maiores clássicos da literatura marítima. Para surpresa dos vinte marinheiros a bordo, o animal avançou feito um touro enfurecido contra a embarcação. Depois de se chocar estrondosamente com o barco, o gigantesco cetáceo fez meia volta, recuperou o fôlego e repetiu o ataque. O navio afundou e seus homens salvaram-se em três pequenos botes. A grande diferença entre a realidade e a ficção é que, no caso do Essex, o naufrágio foi apenas o ponto de partida para testar até onde pode ir o ser humano na batalha pela sobrevivência.

Pelos três meses seguintes, a tripulação do Essex experimentou todos os limites de exaustão, fome e sede. A terra firme mais próxima, as Ilhas Marquesas, a 1.800 quilômetros do local do naufrágio, tinha a fama de ser habitada por canibais. Afastada mais que o dobro dessa distância, a costa da América do Sul acabou sendo a alternativa de salvação escolhida pelos marinheiros.

Quando a provisão de comida se esgotou, os tripulantes passaram a agir como os selvagens. Os primeiros companheiros mortos de inanição serviram de alimento aos demais. Os náufragos arrancavam a cabeça e consumiam imediatamente o fígado e o coração. Em seguida, retalhavam o corpo em pequenos pedaços, que eram mastigados crus. No auge do desespero e sem nenhum cadáver disponível, os náufragos passaram a escolher por sorteio quem seria abatido para alimentar os demais. Até o resgate, seis homens foram canibalizados. De um total de vinte tripulantes do Essex, somente oito conseguiram sobreviver. Quando foram localizados em alto-mar, em dois barcos remanescentes, dois deles ainda chupavam os ossos dos companheiros.

Baseado em ampla pesquisa e fontes inéditas, incluindo um caderno de notas de um dos tripulantes sobreviventes - adolescente na época - perdido no sótão de uma casa por anos, o historiador Nathaniel Philbrick reconstitui todos os detalhes da tragédia, dando vida aos testemunhos. Dos meandros da economia baleeira, passando pela vida dos homens baleeiros: de onde vinham, como construíam seus navios, como escolhiam a tripulação, até às técnicas de navegação a vela e o comportamento das baleias. No Coração do Mar reúne informações minuciosas sobre cada aspecto da história e acaba convidando o leitor a uma releitura do clássico mais famoso sobre a obsessão do Capitão Ahab.


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