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leis epigramáticas - parte 2

miscelânea por Nemo Nox

Escritores de ficção-científica são bons criadores de leis epigramáticas. Mesmo as que foram escritas para ter validade somente nos universos ficcionais dos livros acabavam falando, direta ou indiretamente, da nossa realidade cotidiana.

Leis da Robótica de Asimov:
"1. Um robô não pode fazer mal a um ser humano nem, por inação, permitir que algum mal lhe aconteça.
2. Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, exceto quando estas contrariarem a primeira lei.
3. Um robô deve proteger sua integridade física, exceto quando isto contrariar a primeira ou a segunda lei."

Isaac Asimov, um dos maiores autores da ficção-científica, criou suas leis da robótica como parte do universo futurista no qual ambientou muitos de seus livros. A primeira apresentação explícita das três leis aconteceu no conto Runaround, de 1941, compilado mais tarde no livro I, Robot. O objetivo das leis, programadas no cérebro positrônico dos robôs, seria proteger os humanos de qualquer possível dano causado pelas máquinas inteligentes. Claro que as coisas não funcionam exatamente como planejado, e várias histórias de Asimov mostram resultados imprevistos da obediência literal às Leis da Robótica (por exemplo, em Liar!, um robô telepata mente para os humanos na tentativa de evitar ferir seus sentimentos, numa aplicação da primeira lei, mas descobre que mesmo assim os está ferindo, e acaba sucumbindo ao conflito interno) ou discussões semânticas que redimensionam a aplicação destas leis (por exemplo, os habitantes do planeta Solaria, que aparece em vários livros de Asimov, ensinam aos seus robôs que humanos são somente os que falam o idioma solariano, o que permite que ataquem humanos de outros planetas sem desobedecer as Leis da Robótica).

Existem variantes e modificações para as Leis da Robótica de Asimov. Em Robots and Empire, é incluída uma lei número zero, que amplia para a espécie o que antes só se aplicava a indivíduos: um robô não pode fazer mal à humanidade nem, por inação, permitir que algum mal lhe aconteça. No conto Little Lost Robot, temos um robô programado somente com a primeira parte da primeira lei, ou seja, que não pode fazer mal a um ser humano mas pode, por inação, permitir que algum mal lhe aconteça. Outros autores que também trabalharam no mesmo universo ficcional criado por Asimov introduziram suas próprias versões. Roger MacBride Allen, autor de Caliban, Inferno e Utopia, acrescentou uma quarta lei: um robô pode fazer o que bem entender, desde que isto não crie um conflito com as três primeiras leis. Em Foundation's Fear, de Gregory Benford, Foundation and Chaos, de Greg Bear, e Foundation's Triumph, de David Brin, as Leis da Robótica são exploradas quase como se fossem a base de uma religião para robôs, com um grupo que defende a lei número zero e outro que a renega. Neste cenário, acaba surgindo mais uma lei, a de número menos um, que em teoria poderia garantir igualdade de direitos entre humanos e robôs: um robô não pode fazer mal a seres inteligentes nem, por inação, permitir que algum mal lhes aconteça.

Em qualquer de suas formulações, as Leis da Robótica de Asimov são um excelente pretexto para discutir o tema da moralidade. Mesmo seguindo literalmente um grupo de normas artificialmente criadas, o comportamento resultante poucas vezes é o esperado, e está sempre sujeito a interpretações conceituais relativas.

Leis de Clarke:
"1. Quando um cientista distinto e de idade avançada diz que algo é possível, quase certamente ele está certo. Quando ele diz que algo é impossível, muito provavelmente está errado.
2. O único caminho para descobrir os limites do possível é aventurar-se um pouco além dele, entrando no impossível.
3. Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica."

Outro dos grandes autores da ficção-científica, Arthur C. Clarke formulou suas leis não em trabalhos de ficção mas no ensaio Hazards of Prophecy: The Failure of Imagination, parte do livro Profiles of the Future. Inicialmente era uma só lei, a primeira, que vinha acompanhada de uma definição do que seria idade avançada: "Em física, matemática e astronáutica, significa acima dos trinta anos. Em outras disciplinas, a decadência senil é por vezes adiada até os quarenta anos. Claro que existem gloriosas exceções; mas, como qualquer pesquisador recém saído da faculdade sabe, cientistas acima dos cinqüenta só servem para reuniões de diretoria e devem ser mantidos fora do laboratório a qualquer custo."

A segunda lei de Clarke já aparecia na primeira versão do novo texto, mas como uma observação menor. Foi só quando uma tradução francesa do livro a promoveu ao status de segunda lei que Clarke se animou, aceitou a mudança e ainda acrescentou uma terceira lei (a que se tornou mais popular), dizendo que se Newton se contentava com três leis ele também pararia por ali.

As Leis de Clarke geraram várias versões, paródias e corolários. Isaac Asimov criou um Corolário para a Primeira Lei de Clarke, segundo o qual, se o público leigo apóia com fervor uma idéia dita impossível pelo tal cientista distinto e de idade avançada, este último está provavelmente certo. Gregory Benford propôs uma variante para a terceira lei: Qualquer tecnologia distinguível da magia é insuficientemente avançada.

Lei de Sturgeon:
"Noventa por cento de tudo é tosco."

Theodore Sturgeon não é um autor tão conhecido do grande público como Asimov ou Clarke, mas sua importância na ficção-científica é inegável. Seus contos são freqüentemente citados como influência de escritores como Ray Bradbury, Harlan Ellison, Kurt Vonnegut Jr e Samuel Delany, entre outros. Também foi roteirista de um par de episódios da série clássica Star Trek.

A versão mais repetida para a origem da Lei de Sturgeon fala de uma convenção de sci-fi em 1953 na qual o autor teria dito: "Claro, noventa por cento da ficção-científica é tosca. Isso é porque noventa por cento de tudo é tosco." O próprio Sturgeon, porém, chamava sua lei de Revelação de Sturgeon, e a definia formalmente com dois corolários. A Revelação: Noventa por cento de tudo é tosco. Corolário 1: A existência de imensas quantidades de lixo na ficção-científica é reconhecida e lamentável, mas não é menos natural que a existência de lixo em qualquer lugar. Corolário 2: A melhor ficção-científica é tão boa como a melhor ficção em qualquer gênero.

Lâmina de Hanlon:
"Nunca atribua malícia ao que pode ser adequadamente explicado por incompetência."

Numa variação da Lâmina de Occam ("pluralitas non est ponenda sine necessitate", ou, numa interpretação livre, "a explicação mais simples é normalmente a mais correta"), a Lâmina de Hanlon faz um comentário sarcástico sobre a natureza humana, e poderia ser postulada como uma mistura do Princípio de Peter com a Lei de Sturgeon: noventa por cento da humanidade é incompetente.

A autoria da Lâmina de Hanlon é incerta (não por malícia, mas certamente por incompetência). Há quem afirme que foi criada por Robert J. Hanlon, citado por Arthur Bloch em um de seus vários livros sobre a Lei de Murphy. Mas a versão mais aceita considera Hanlon como uma corruptela do sobrenome do famoso autor de ficção-científica Robert Heinlein e aponta como evidência uma frase do seu conto Logic of Empire, de 1941: "Você assumiu como vilania o que é simplesmente resultado de estupidez."

TANSTAAFL:
"Não existe almoço grátis."

Se não há certeza quanto à sua autoria na Lâmina de Hanlon, ao menos Robert Heinlein tem outra lei epigramática só dele. TANSTAAFL é a acrossemia de There Ain't No Such Thing As A Free Lunch (em tradução livre para português, "não existe almoço grátis") e apareceu no livro The Moon is a Harsh Mistress, de 1966. Desde então, transformou-se em lema para defensores do mercado livre, incluindo Milton Friedman, ganhador do prêmio Nobel de economia em 1976.

A idéia básica de TANSTAAFL é que qualquer coisa com algum valor tem um custo para alguém, por vezes disfarçado em benefícios (por exemplo, promoções de marketing do tipo "pague dois, leve três"), por vezes cobrado de outras pessoas (num exemplo da direita, a redistribuição de riqueza através de impostos altos; num exemplo da esquerda, a acumulação de riqueza de alguns países a partir da exploração de outros países). Como diz o personagem Manuel, de The Moon is a Harsh Mistress, qualquer coisa grátis custa o dobro a longo prazo ou se revela sem qualquer valor.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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