burburinho

noel por noel

música por Ayrton Mugnaini Jr.

Sem dúvida alguma, Noel Rosa é um dos grandes compositores da MPB, talvez o primeiro a sobrelevar sambas e marchas com letras inteligentes porém espontâneas e coloquiais, certamente um mestre sempre atual do bom humor, observação social e ironia - sempre bem-vindos, ainda mais nesta época dominada pela pobreza musical.

Noel Por Noel (Imperial/Odeon, número 30205, de 1971, reeditado como 036422439 em 1978) é um LP póstumo (tendo vivido de 1910 a 1937, Noel não conheceu a era do LP, inaugurada no Brasil em 1951) que mostra Noel Rosa como intérprete, reunindo uma dúzia de faixas, muitas ainda inéditas em CD para o grande público.

As doze faixas de Noel Por Noel saíram originalmente em seis discos 78 RPM, alguns pelo selo Odeon, outros por sua subsidiária Parlophon (prima brasileira da mesma Parlophone inglesa onde gravariam os Beatles; só não me pergunte como o "e" final foi sumir no Brasil e também, pelo menos, na Itália). Aqui estão eles: Com Que Roupa? / Malandro Medroso (Parlophon, 13245, novembro de 1930), Cordiais Saudações / Mulata Fuzarqueira (Parlophon, 13227, julho de 1931), Seu Jacinto / Quem Não Dança (Odeon, 10953, janeiro de 1933), João Ninguém / Conversa De Botequim (Odeon, 11257, setembro de 1935), Quem Dá Mais? / Coração (Odeon, 10931, 1932), De Babado / Cem Mil Réis (Odeon, 11337, abril de 1936).

Estes seis compactos da idade da pedra são importantes não só por trazerem grandes clássicos de Noel e da própria MPB, mas também para conhecermos a evolução do próprio samba e da produção de discos no Brasil.

É muito bom ouvirmos a melhor música dos anos trinta (a mais criativa deste século, na minha opinião), não simplesmente por nostalgia, curiosidade ou pesquisa, mas por sua sonoridade, pouco usual hoje em dia e que constitui mais uma opção de timbres e procedimentos melódicos e harmônicos. Nestes discos de Noel nota-se bem a urbanização e transição do samba, em letras, melodias e arranjos.

Música popular, ontem como hoje, sempre se resumiu a dois detalhes: uso de fórmulas e repetição sem tédio. Com a invenção da gravação sonora, a música, por mais inspirada e bem feita que fosse, assumiu-se de vez como produto comercial, e a indústria fonográfica pegou embalo desde cedo. Na era do cilindro, só se podiam tirar poucas cópias e um cantor cantava a mesma música inúmeras vezes; ao surgir o disco, mais prático e versátil, o artista só precisava interpretar cada obra uma vez, mas interpretava muitas numa única sessão, geralmente com a mesma formação instrumental. Isso se percebe nestes seis 78s de Noel, cada um gravado numa ocasião e com acompanhamento diferente.

A "influência do jazz" na música brasileira denunciada por Carlos Lyra vem praticamente desde o nascimento do próprio jazz nos EUA. É impossível subestimar a importância do maestro norte-americano Paul Whiteman (1890-1967), sempre dedicado a vestir a música popular com arranjos elaborados, sempre empregando músicos e arranjadores de primeira linha (muitas vezes com espaços para improvisar, o que o levava a se promover, não com um pequeno exagero, como "King of Jazz"). Noel Rosa, embora tido como xenófobo, não se opôs a boas influências estrangeiras, tendo composto inclusive fox-trotes (rótulo genérico norte-americano usado até os anos cinqüenta para qualquer canção em compasso 4/4) e operetas humorísticas. Mas devem ter sido impostos pela gravadora os arranjos whitemanianos de Quem Dá Mais? e Coração, remanescentes dos anos dez e vinte e bem apropriados para o vaudeville, mas que não conseguem dar o balanço exigido pelos dois sambas. Salvam-se, é claro, as músicas e a voz de Noel, formando inclusive um contraste interessante e até divertido com o acompanhamento elefantino. Se é para se ter influência do jazz, a coisa melhora muito no disco Seu Jacinto / Quem Não Dança, com um naipe de metais bem mais adequado à animação desta dupla de samba & marcha, bem secundado pelo grupo Gente Boa.

Dois destes 78s têm acompanhamento espartano porém adequado e eficiente. Nos sambas Cordiais Saudações e Mulata Fuzarqueira temos apenas piano e violões do Bando de Tangarás. E em Com Que Roupa? / Malandro Medroso, primeiro disco-solo de Noel, ouve-se o bandolim do grande Luperce Miranda, acompanhado por violões - um disco básico e ideal para quem quer aprender a tocar samba com balanço.

Em termos de acompanhamento instrumental, as mais irretocáveis destas gravações de Noel devem ser as feitas com o conjunto regional do flautista Benedicto Lacerda: De Babado, Cem Mil Réis, João Ninguém e Conversa De Botequim. Ouvidas em reedições sem chiados, é quase impossível crer que elas foram feitas antes da entrada da fita magnética nos estúdios. Lembremos também o auxílio luxuoso de amigos como Marília Batista, que canta Cem Mil Réis e De Babado em dueto com Noel, e o grande sambista Ismael Silva, no disco de Seu Jacinto e Quem Não Dança.

Talvez não seja preciso comentarmos Com Que Roupa? e Conversa De Botequim (esta em parceria com Vadico), duas das melhores e mais conhecidas do cânone noelino. E ambas vêm acompanhadas em seus discos por obras à altura, duas belas caricaturas de tipos da classe média urbana, respectivamente Malandro Medroso (embora na época a crítica não tenha gostado - aliás, se existiu artista popular à frente de seu tempo e cujo público nasceu após ele ter falecido, sem dúvida foi Noel) e a esplêndida João Ninguém ("esse João / nunca se expôs ao perigo / nunca teve um inimigo / nunca teve opinião").

De Babado e Quem Não Dança provam a habilidade de Noel em desenvolver refrões simples. A marchinha Seu Jacinto (revivida nos anos 70 por Maria Alcina) traz uma das estrofes mais punks de Noel: "Quando tem baile lá na casa da Tereza / ela faz pano de mesa / com o lençol que cobre a cama / bota nos copos água usada da banheira / Depois diz à turma inteira / que é cerveja lá da Brahma". O que levou um leitor a protestar na imprensa: "O final da letra desta marcha é bem desagradável para quem tem família e tem a infelicidade de ter um rádio em casa ligado para qualquer das nossas estações."

Cordiais Saudações e Quem Dá Mais? têm a originalidade das letras, vazadas respectivamente em forma de carta e pregão de leiloeiro. Ambas ainda se distinguem pelas cutucadas de Noel nos prestamistas, ou seja, vendedores a prazo, precursores dos crediários e igualmente eficientes em endividar compradores mais incautos. Na época os prestamistas eram chamados genericamente de "judeus", devido ao estereótipo do apego ao dinheiro pelos semitas, e Noel não pôde (ou quis) escapar a este costume, o que provocou protestos de Jorge Mautner - aliás grande fã de Noel.

Mulata Fuzarqueira é um samba de leve sabor sertanejo ("meu amô não tem 'r' / mas é amô dibaixo dágua"). Cem Mil Réis (parceria com Vadico) é uma deliciosa crônica do cotidiano, onde Noel ataca sutilmente outro de seus grandes alvos, o casamento. E Coração, um dos primeiros sambas de Noel, acabou famoso por um erro de medicina: "Coração / grande órgão propulsor / transformador do sangue venoso em arterial". Realmente, ninguém era perfeito, nem mesmo Noel. Mas Noel errando ainda é melhor que Lincoln Olivetti acertando.


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