burburinho

gonçalves dias

livros por Gabriel Perissé

Não é difícil encontrar pessoas que, mesmo hoje, saibam de cor alguns versos de Gonçalves Dias, um dos maiores poetas brasileiros. Basta citar aqueles "Minha terra tem palmeiras / Onde canta o sabiá" da Canção do Exílio, por exemplo, que é, entre os seus poemas, o que mais fez sucesso desde que foi publicado no livro de estréia (Primeiros Cantos, em 1847, quando tinha 24 anos), e cujos "Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida, mais amores" reaparecem ligeiramente modificados no Hino Nacional.

Gonçalves Dias era filho de um português e de uma cafusa, de modo que seu nacionalismo não consistia apenas numa nota romântica, mas num dado genético: branco, negro e índio, mistura perfeita. Mistura, aliás, que foi de algum modo por ele tematizada no poema Marabá (palavra que em língua tupi significa a mistura entre índios e brancos), em que a índia (filha de uma índia com um europeu) se queixa da discriminação que sofre dos homens da tribo: "Eu vivo sozinha; ninguém me procura! / Acaso feitura / Não sou de Tupá? / Se algum dentre os homens de mim não se esconde, / 'Tu és', me responde, / 'Tu és Marabá!'"

Lembremos aqui a familiaridade de Gonçalves Dias com a língua tupi, a ponto de ter composto um Dicionário Tupi, trabalho que não se deve encarar apenas como uma pesquisa filológica e etnológica. Acabou por ser também uma busca de inspiração poética, de que os poemas indianistas se beneficiaram. O famoso I-Juca-Pirama - que quer dizer "aquele que é digno de ser morto" e, segundo o crítico José Guilherme Merquior, é uma das realizações mais perfeitas do verso em português - deixa transparecer o seu conhecimento científico, antropológico, da mentalidade e da cultura indígenas. O poema conta uma história. O guerreiro tupi, aprisionado pelos Timbiras, vai morrer num festim canibal. Preparam-no para ser morto, cortando-lhe o cabelo e pintando-lhe a pele. No entanto, o guerreiro chora, e pede que o deixem ajudar o pai cego que dele precisava. Seu choro denuncia fraqueza, e o chefe timbira se recusa a alimentar seu povo com a carne de um covarde. O rapaz, envergonhado, embora aliviado, volta para o pai que, tocando sua pele e seu crânio, descobre que o filho escapara da morte heróica. Pai e filho retornam à presença dos Timbiras, e aquele tenta convencê-los de que devem prosseguir no ritual. Nova recusa. E o pai então lança uma terrível maldição sobre o filho: "Que a teus passos a relva se torre; / Murchem prados, a flor desfaleça, / E o regato que límpido corre, / Mais te acenda o vesano furor; / Suas águas depressa se tornem, / Ao contacto dos lábios sedentos, / Lago impuro de vermes nojentos, / Donde fujas com asco e terror!" Mas não termina aqui o poema. No momento em que o velho tupi se dispõe a ir embora sem o filho, este solta o grito de guerra e sozinho ataca os Timbiras, falecendo no combate suicida. O pai então o aceita de novo, chorando orgulhoso sobre o cadáver do filho. "Meninos, eu vi" é a expressão com que Gonçalves Dias conclui o poema, colocando-a na boca de um velho timbira que conta a história para aqueles que não a presenciaram: "Valente e brioso, como ele, não vi!"

E temos toda a poesia amorosa de Gonçalves Dias, que ainda hoje serve como referência para os apaixonados, como naqueles versos ritmados de Ainda uma vez - Adeus: "Enfim te vejo! - enfim posso, / Curvado a teus pés, dizer-te / Que não cessei de querer-te, / Pesar de quanto sofri." A sua lírica tem muito de autobiográfico, e são reconhecíveis as mulheres em quem pensava quando escrevia este ou aquele poema. Mesmo casado, envolveu-se com várias outras, e as que amou no passado continuavam sendo suas musas inspiradoras. O poema Minha vida e meus amores, por exemplo, se refere a três dessas mulheres que não voltou a ver, mas que jamais esqueceu. Na realidade, incorrigível romântico, Gonçalves Dias sempre estava à procura do amor perfeito: "O amor sincero e fundo e firme e eterno, / Como o amor em bonança meigo e doce", inalcançável.

O antológico Se se morre de amor! é outra dessas realizações poéticas que ainda se podem ler, hoje, nas anotações de uma adolescente mais conservadora. O poema, com uma epígrafe em alemão de Schiller que demonstra o grau de erudição do poeta maranhense, faz uma bela análise do amor verdadeiro e do falso amor. O falso é aquele amor nascido nas festas efêmeras, nos encontros fugazes, e desse amor não se morre. O amor verdadeiro é o do êxtase mais puro, em que os amantes experimentam efeitos semelhantes aos da contemplação religiosa: "Sentir, sem que se veja, a quem se adora; / Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos, / Segui-la, sem poder fitar seus olhos" - e desse amor se morre.

No final da vida, muito doente, Gonçalves Dias, que estava na Europa a trabalho, temendo o inverno daquele ano de 1864 resolve regressar uma vez mais ao Brasil. Embarca em 10 de setembro e quase dois meses depois de uma longa viagem em alto-mar, o navio em que vinha naufraga na costa do Maranhão. O poeta, já muito enfraquecido, estava deitado no seu camarote, e por isso foi a única vítima fatal do acidente. Todos se salvaram, mas ninguém teve a idéia de ajudá-lo a sair. Ironicamente (com pitadas de humor negro), a última estrofe da Canção do Exílio não se cumpriu: "Não permita Deus que eu morra / Sem que eu volte para lá".


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