burburinho

the omen

cinema por Nemo Nox

Depois do sucesso de The Exorcist em 1973, os grandes estúdios de Hollywood estavam prontos para embarcar em mais projetos demoníacos, e três anos depois The Omen veio preencher aquele espaço. Com direção de Richard Donner, naquela época mais conhecido pelo seu trabalho na televisão (The Six Million Dollar Man, Kojak, The Streets of San Francisco, e várias outras séries), o filme misturou com eficácia a narrativa típica de thrillers e elementos de mitologia cristã, e mesmo com um modesto orçamento de menos de três milhões de dólares acabou faturando mais de sessenta milhões (e ainda outros quarenta milhões com as duas continuações).

(O título brasileiro, A Profecia, foi infeliz não somente pela tradução mal feita - "omen" não é "profecia" e sim "presságio" - mas também por usar com antecedência o nome que por direito seria de The Prophecy, outra trilogia baseada em mitologia cristã, que acabou chamada de Anjos Rebeldes.)

A história é simples. Diplomata estadunidense aceita uma troca de bebês na maternidade (seu filho nascera morto) sem o conhecimento da esposa. Anos depois, começa a ter indícios que a criança adotada seria na verdade uma criatura infernal, o Anti-Cristo. Uma série de acidentes estranhos vai confirmando as suspeitas do pai até que ele resolve matar o menino que poderia ser instrumento do fim dos tempos. Um dos maiores acertos de Richard Donner certamente foi tratar o tema de forma razoavelmente aberta, deixando ao espectador a escolha final entre uma explicação sobrenatural (o menininho era realmente o filho do demônio) e uma explicação cética (o pai do menininho estava psicologicamente desequilibrado para acreditar numa história daquelas).

O elenco de respeito certamente ajudou a atrair público para The Omen, com Gregory Peck, indicado cinco vezes ao Oscar e vencedor por To Kill a Mockingbird, e Lee Remick, indicada ao Oscar por Days of Wine and Roses, nos papéis principais. David Warner (de Star Trek e Planet of the Apes) é o fotógrafo que documenta os acontecimentos, e o australiano Leo McKern (o monge de Ladyhawke) é o padre-arqueólogo especialista em histórias sobre o Anti-Cristo. Damien, a criança demoníaca, foi interpretada por Harvey Stephens quando tinha quatro anos. Depois disso, só apareceu mais uma vez nos cinemas, no curta-metragem dirigido por Ben Affleck I Killed My Lesbian Wife, Hung Her on a Meat Hook, and Now I Have a Three-Picture Deal at Disney, de 1993. Outra curiosidade no elenco é a presença de Holly Palance, filha de Jack Palance, como a primeira babá de Damien.

Um dos elementos mais memoráveis de The Omen é a trilha sonora de Jerry Goldsmith, com corais cantando em latim (incluindo uma canção chamada Ave Satani), que rendeu o primeiro Oscar ao compositor, até então indicado oito vezes sem sucesso. Depois de receber a estatueta, Goldsmith colecionou outras tantas indicações ao Oscar mas não voltou a ser agraciado com o prêmio.

Para aproveitar a repercussão de The Omen, foi logo feita uma continuação, Damien: Omen II, de 1978, dirigido por Don Taylor (Mike Hodges começou as filmagens mas foi substituído depois por "conflitos criativos"). Novamente os produtores buscaram nomes de peso para os papéis principais, e conseguiram escalar William Holden, Oscar por Stalag 17 em 1953, e Lee Grant, Oscar por Shampoo em 1975. Curiosamente, Holden já havia recusado o papel que ficou com Gregory Peck em The Omen, alegando não querer participar num filme sobre o diabo. Com o sucesso do filme anterior, deve ter achado prudente aceitar a nova oferta. Para interpretar um Damien mais grandinho, foi escolhido o inglês (nascido no Brasil) Jonathan Scott-Taylor, que depois largou a carreira cinematográfica para se tornar advogado.

Damien: Omen II segue a mesma linha do filme anterior, com uma série de acidentes e mortes demonstrando que ninguém pode ficar no caminho do Anti-Cristo. Não acrescenta muito, porém, ao que já tinha sido dito antes, e tampouco oferece alguma conclusão. A maior diferença é o tom da narrativa, que agora parece não deixar dúvidas quanto às possíveis interpretações dos fatos: Damien é realmente uma criatura sobrenatural.

O terceiro filme da série veio em 1981, com o título The Final Conflict, dirigido por Graham Baker. Agora Damien já é adulto, profissional bem-sucedido na carreira empresarial e diplomática, às vésperas do trigésimo-terceiro aniversário, e sua luta é para eliminar a reencarnação de Cristo, supostamente um recém-nascido anunciado por um peculiar alinhamento de estrelas. Sam Neil, ainda em início de carreira e longe de interpretações como as de Jurassic Park ou The Piano, dá rosto ao Anti-Cristo, caçado pelo veterano italiano Rossano Brazzi, de The Barefoot Contessa e Summertime.

The Final Conflict parece quase uma paródia dos filmes anteriores. Damien tem monólogos afetados nos quais zomba de uma estátua de Cristo. Os padres que o perseguem são ridiculamente desastrados. As regras para matar o Anti-Cristo, estabelecidas em The Omen e confirmadas em Damien: Omen II, são convenientemente mudadas sem qualquer explicação. E o final glorificador do cristianismo tem parentesco maior com filmes bíblicos que com thrillers de horror. O menininho que era capaz de causar calafrios com um olhar se transfornou num yuppie pernóstico. Sinal dos tempos?


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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