burburinho

cruz e souza

livros por Gabriel Perissé

Na epígrafe do seu livro de poemas Broquéis (1893), Cruz e Souza cita Baudelaire: "Senhor meu Deus! Concedei-me a graça de produzir alguns versos belos que provem a mim mesmo que não sou o último dos homens, que não sou inferior àqueles que desprezo." Este grito de ressentimento e dor foi retirado de um poema em prosa do simbolista francês, poema em que aparece um poeta insone, no início da madrugada, pensando na vida pessoal e na vida urbana moderna da qual não pôde escapar nesta Paris que se torna cidade desumana. Longe das faces tirânicas de outros seres humanos, depois de um dia em que esteve cercado de pessoas medíocres, e agora acusando-se ele mesmo de ter sido conivente com tudo e ainda mais medíocre, encontra no silêncio e na solidão da noite a oportunidade de relaxar, tomando um "bain de ténèbres", um banho de trevas.

A epígrafe foi escolhida a dedo por Cruz e Souza, poeta dos mais importantes na história da literatura brasileira, e cujo nome parece carregar, no nosso imaginário, o símbolo máximo da dor e do estigma: a cruz poética de um homem negro e pobre num país inculto.

Os pais de Cruz e Souza foram escravos — o mestre-pedreiro Guilherme e a escrava liberta Carolina Eva da Conceição. Cruz e Souza nasceu em Desterro (Nossa Senhora do Desterro), no ano de 1861, cidade que viria a chamar-se Florianópolis, longe do então centro político e cultural brasileiro, o Rio de Janeiro, onde se estabeleceu em 1890, e onde ainda se encontram descendentes seus em modestíssimas condições de vida. A esposa de Cruz e Souza (costureira, negra, chamada Gavita) enlouqueceu. Cruz e Souza foi desprezado pela Academia Brasileira de Letras recém-fundada (1896). Morreu de tuberculose aos 37 anos, numa situação econômica muito difícil. Tais "manchetes" poderiam resumir a vida de um literato fracassado.

Contudo, seu talento sublima tudo isso, operando como que uma libertação estética e existencial. Seus poemas de juventude, que no começo eram imitações mais ou menos bem feitas do estilo romântico dominante, transformaram-se em poesia sinestésica, impressionista, mística, litúrgica, revoltada, alegórica, permeada de um sensualismo angustiado e de um espiritualismo nebuloso, enfim, uma poesia com os traços típicos do que se convencionou chamar movimento simbolista, e que alguns historiadores dão por terminado, no Brasil, no ano em que Cruz e Souza morreu: 1898.

Cristo de bronze é um destes poemas que refletem o estilo e o espírito do Cisne Negro, como alguns amigos o chamavam, apelido que rebate a imagem que alguns têm de homem complexado, de pobre coitado, imagem incompatível com um autor de tal poema:

Cristo de Bronze

Ó Cristos de ouro, de marfim, de prata,
Cristos ideais, serenos, luminosos,
Ensangüentados Cristos dolorosos
Cuja cabeça a Dor e a Luz retrata.

Ó Cristos de altivez intemerata,
Ó Cristos de metais estrepitosos
Que gritam como os tigres venenosos
Do desejo carnal que enerva e mata.

Cristos de pedra, de madeira e barro...
Ó Cristo humano, estético, bizarro,
Amortalhado nas fatais injúrias...

Na rija cruz aspérrima pregado
Canta o Cristo de bronze do Pecado,
Ri o Cristo de bronze das luxúrias!...

A visão "mística" distorcida é a visão mesma do pecador consciente, não do homem aburguesado e feliz consigo mesmo dos dois quartetos do soneto, simbolizado e encarnado por um Cristo "vencedor". O Cristo feito de materiais menos nobres do que o ouro e o marfim é o Cristo humano, coberto de injúrias, e prisioneiro mortal da baixeza.

Este poema manifesta as forças da angústia que estavam na linha de uma poesia mórbida, de fim de século, mas igualmente irônica. Há aqui um desespero espiritual que não encontra mais na religião um bálsamo de luz, um simples consolo. A oração inicial dirigida ao Cristo idealizado torna-se oração a um Cristo cujo riso e cujo canto são dionisíacos e enlouquecidos, são delirantes, são sacrílegos, bem ao gosto dos poetas malditos.

Como jornalista, Cruz e Sousa foi também ousado e irreverente, escrevendo contra a escravidão, ora em tom de combate aberto, ora em tom sarcástico. Num de seus artigos, pelos quais ganhava um salário de fome, escreveu: "Não se liberta o escravo por pose, por chiquismo, para que pareça a gente brasileira elegante e graciosa antes as nações disciplinadas e cultas"; mas em outros momentos aparecia na imprensa recorrendo a um estilo humorístico e usando pseudônimos como Felisberto, Filósofo Alegre, Coriolano Scévola, Habitué, Heráclito, Zat e Zot.

Para sobreviver no Rio de Janeiro, nos seus últimos dez anos, o maior poeta catarinense trabalhava ainda como arquivista da Central do Brasil e dava aulas de inglês e francês, mas verdade seja dita que, além de sustentar quatro filhos, gastava o que não tinha com boas roupas e outros pequenos luxos. Morreu numa situação de grande desamparado, num sítio em Minas Gerais, tentativa desesperada de curar-se da tuberculose.

A imagem de Cruz e Souza como um "acrobata da dor" (título de um poema seu) confere à sua figura o tom paradoxal e ambivalente que, na década de 50, jovens moradores da cidade de Florianópolis talvez tenham compreendido mais do que muitos críticos literários de ontem e de hoje. O busto de Cruz e Sousa lá existente, busto de bronze como o Cristo evocado naquele soneto, era retirado da praça em que estava e levado a passeio, à noite, de carro, como parte das brincadeiras estapafúrdias de rapazes empolgados, numa procissão ilógica, numa via crucis absurda mas muito significativa.


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