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os filmes de ray harryhausen - parte 2

cinema por Nemo Nox

Quando Tom Hanks apresentou o Oscar honorário (Gordon E. Sawyer Award) para Ray Harryhausen em 1991, fez uma declaração bombástica: "Algumas pessoas dizem que é Casablanca ou Citizen Kane. Eu digo que o melhor filme já feito é Jason and the Argonauts." Este filme pode nem ser o melhor de Harryhausen, mas deve ser o que mais gente influenciou, graças a uma grande coleção de cenas de animação stop-motion.

Baseado vagamente na lenda do velo de ouro, Jason and the Argonauts (1963) conta a história de Jasão (interpretado por Todd Armstrong, ator estadunidense de curta carreira) e seu grupo de heróis (entre eles, um ótimo Hércules interpretado por Nigel Green) em viagem aos confins do mundo para buscar um objeto mítico. Pelo caminho encontram várias criaturas fantásticas, como um gigante de bronze (com movimentos bruscos para simular o caráter mecânico da estátua colossal), hárpias (monstros alados com garras afiadas), uma hidra de sete cabeças (segundo Ray, um problema para animar porque se ele fizesse uma pausa acabava esquecendo qual cabeça estava avançando e qual estava recuando) e, claro, um grupo de esqueletos espadachins. Ampliando a famosa cena de The 7th Voyage of Sinbad, Harryhausen criou aqui uma batalha entre os três últimos sobreviventes da expedição e sete esqueletos animados. Foram mais de quatro meses de trabalho para criar esta sequência de poucos segundos, mas o resultado ficou marcado na mente de legiões de fãs (alguns mais tarde tornando-se cineastas e tentando imitar e superar o mestre, entre eles nomes como Steven Spielberg e George Lucas). Jason and the Argonauts foi dirigido por Don Chaffey, experiente com séries de tv como The New Adventures of Charlie Chan e The Avengers, e teve trilha sonora de Bernard Herrmann.

Mudando da mitologia grega para a ficção-científica, o projeto seguinte de Ray Harryhausen foi First Men in the Moon (1964), inspirado na obra de H.G. Wells. A direção é novamente de Nathan Juran, que já havia trabalhado com Harryhausen em 20 Million Miles to Earth e 7th Voyage of Sinbad, e o roteiro passou pelas mãos de Nigel Kneale, criador das séries de tv com o personagem Bernard Quatermass (The Quatermass Experiment, Quatermass 2, Quatermass and the Pit). As criaturas animadas aqui são poucas mas boas: os insetos humanóides que habitam a lua (somente os principais, enquanto os figurantes de fundo eram crianças com roupinhas de inseto) e uma centopéia gigante numa cena de luta. A história tem muito humor e mais elementos de fantasia que de ficção-científica. Um detalhe interessante é que o roteiro vai buscar um elemento importante de outro livro de Wells, War of the Worlds.

One Million Years B.C. (1966), dirigido por Don Chaffey (o mesmo de Jason and the Argonauts) é tão involuntariamente hilariante quanto o original de 1940, One Million B.C., estrelado por Victor Mature. Supostamente passado na pré-história e com o slogan "assim eram as coisas", o filme mostra, sem qualquer preocupação com o disparate cronológico, seres humanos convivendo com dinossauros. Pior que isso, na mistura aparecem também aranhas gigantes e lagartos gigantes. Mas muito pior que essas derrapadas paleontológicas é o roteiro maniqueísta que apresenta duas tribos de homens pré-históricos: uns morenos, sujos e violentos; outros, loirinhos, limpinhos e bonzinhos. Só faltaram etiquetas com as palavras "EUA, mocinhos" e "terceiro mundo, bandidos" para identificar as tribos. Salvam-se somente duas coisas em One Million Years B.C., a beleza da protagonista Raquel Welch e as criaturas de Ray Harryhausen. Temos a luta entre um triceratops e um tiranossauro, um alossauro atacando o acampamento humano, e o pteranodonte que rapta a mocinha. Apesar do roteiro absurdo, One Million Years B.C. foi refilmado em 1970 com o título When Dinosaurs Ruled the Earth.

Harryhausen voltou aos dinossauros em seu filme seguinte, o divertido The Valley of Gwangi (1969), dirigido por Jim O'Connolly. Um grupo de cowboys descobre um vale perdido no México, onde ainda vivem criaturas pré-históricas (o mesmo tema de The Lost World). Numa das melhores cenas do filme, Gwangi, um alossauro criado em stop-motion, é laçado por três cowboys à cavalo, com interação convincente entre atores e miniaturas. Levado para a cidade como atração circense (o mesmo tema de King Kong), a criatura escapa e espalha o pânico. O filme tem várias boas cenas envolvendo dinossauros (por exemplo, o alossauro lutando com um elefante, ou o pterodáctilo raptando um menino), mas uma das mais encantadoras animações aqui é a do eiohipus, o cavalinho em miniatura que é o ponto de partida da história. James Franciscus (de Beneath the Planet of the Apes) é o herói e a polonesa Gila Golan (de Our Man Flint) é a mocinha.

Depois de alguns anos de inatividade, na década de setenta Ray Harryhausen voltou ao mundo das mil e uma noites com dois filmes. The Golden Voyage of Sinbad (1974), dirigido pelo alemão Gordon Hessler (de séries de tv como Kung Fu e Wonder Woman), entra sem medo no terreno do kitsch, dos figurinos e cenários pseudo-orientais à trilha sonora exagerada de Miklós Rózsa. John Phillip Law (saído há pouco de outro clássico kitsch, Barbarella) é Sinbad e a heroína é a musa do terror Caroline Munro (de The Abominable Dr. Phibes, Dr. Phibes Rises Again, Dracula A.D. 1972, Kronos, Vampyre, entre outros). Mais uma vez, porém, são as criaturas de Harryhausen que dominam a tela. Um homúnculo alado e uma figura de proa que ganha vida, um centauro e um grifo estão entre os personagens feitos em stop-motion para este filme, mas nenhum se equipara à estátua de Kali, que primeiro dança graciosamente e depois enfrenta Sinbad com seus seis braços armados de espadas. Mesmo que a história seja simplória e o visual datado, a animação de Harryhausen justifica assistir The Golden Voyage of Sinbad.

O roteiro de Sinbad and the Eye of the Tiger (1977), dirigido por Sam Wanamaker, é ainda mais fraco que o do filme anterior, e mais uma vez é o trabalho de Ray Harryhausen que garante a diversão. Entre as criaturas mágicas animadas em stop-motion temos desta vez um minotauro dourado, uma trinca de monstros insetóides, uma morsa gigante e um babuíno inteligente. O tour-de-force é o combate entre um troglodita bonzinho (um gigante com um chifre no meio da testa) e um selvagem tigre dentes-de-sabre, seqüência que deve constar em qualquer retrospectiva de Harryhausen. Curiosidade: o ator dentro da roupa de minotauro dourado (quando não é usada animação stop-motion para o personagem) é Peter Mayhew, que no mesmo ano foi o ator dentro da roupa do wookiee Chewbacca em Star Wars.

Clash of the Titans (1981), dirigido pelo inglês Desmond Davis, foi o último e o maior filme com efeitos especiais de Ray Harryhausen. Seguindo uma estrutura semelhante a de Jason and the Argonauts, com divindades olímpicas usando os pobres heróis gregos como peões em seus joguinhos de ciúme e poder, o roteiro conta a história de Perseu (interpretado por Harry Hamlin, o Michael Kuzak da série de tv L.A. Law) e Andromeda (Judi Bowker, figura conhecida do terror televisivo da década de setenta, tendo participado de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, The Picture of Dorian Gray e Count Dracula). Interpretando os deuses clássicos temos uma série de nomes bem conhecidos: Laurence Olivier (Oscar por Hamlet) é Zeus, Claire Bloom (de Limelight) é Hera, Maggie Smith (Oscars por The Prime of Miss Jean Brodie e California Suite) é Tétis, Ursula Andress (Golden Globe por Dr. No) é Afrodite, Susan Fleetwood (irmã do Mick Fleetwood, do grupo Fleetwood Mac) é Palas Atena. A trama foi planejada para maximizar o impacto das criaturas animadas de Harryhausen, e contava com mais de duzentas tomadas com efeitos especiais. Temos escorpiões gigantes, um abutre imenso, a coruja mecânica Bubo (um bichinho irritante e sem graça, ponto fraco do filme), um cão com duas cabeças (talvez primo de Cérbero, o cachorro de três cabeças que guardava as portas do inferno), o cavalo alado Pégaso (uma bela animação, ponto forte do filme), o vilão Calibos (espécie de demônio com chifres e pés de cabra, emprestado da peça shakespeareana The Tempest), o monstro marinho Kraken (emprestado da mitologia escandinava) e a terrível Medusa (corpo de serpente, cobras nos cabelos, olhar capaz de petrificar, e ainda atirando flechas contra os invasores dos seus domínios, numa animação incrivelmente detalhada e iluminada por tochas bruxuleantes, uma das melhores feitas por Harryhausen). Clash of the Titans é um clássico de sessão da tarde, representante derradeiro de um tempo anterior aos modelos em três dimensões animados por computador e ótimo exemplo da habilidade e da criatividade de Ray Harryhausen.


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