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os filmes de ray harryhausen - parte 1

cinema por Nemo Nox

O herói abraça a princesa e usa uma corda para atravessar com ela a ponte partida. Cena de Star Wars (1977)? Não, o filme é The 7th Voyage of Sinbad (1958). O dinossaurinho Galimimus vai correndo elegantemente até ser abocanhado pelo terrível T. Rex. Cena de Jurassic Park (1993)? Não, o filme é The Valley of Gwangi (1969). Esqueletos voltam à vida para enfrentar o herói com suas espadas. Cena de The Mummy (1999)? Não, o filme é Jason and the Argonauts (1963). O que todos estes títulos têm em comum, além de serem fonte de inspiração para dezenas de cineastas importantes, é a presença de Ray Harryhausen, o criador de efeitos especiais que marcaram a história do cinema.

Ray Harryhausen nasceu em 1920, e ainda criança assistiu The Lost World (1925) e King Kong (1933), ambos filmes com criaturas pré-históricas criadas com a técnica de animação chamada stop-motion, na qual miniaturas articuladas são fotografadas quadro a quadro para criar ilusão de movimento na tela. Ray encantou-se com aquilo e desde cedo começou a criar na garagem seus próprios filmes de animação, com apoio dos pais (a mãe ajudava nos figurinos, o pai ajudava a criar as estruturas mecânicas).

Não satisfeito com suas experiências domésticas, Ray foi procurar Willis O'Brien, responsável pelos efeitos especiais de King Kong, e acabou contratado para mais um filme com macacos, Mighty Joe Young (1949). Foi um ótimo aprendizado para ele, não só em termos técnicos mas também no controle de orçamentos, já que O'Brien era famoso por gastar mais do que o previsto.

O primeiro filme a ter Ray Harryhausen como responsável pelos efeitos especiais foi The Beast From 20,000 Fathoms (1953), dirigido pelo diretor russo Eugène Lourié. Com história inspirada num conto de Ray Bradbury, amigo de Harryhausen, o roteiro contava como um gigantesco réptil pré-histórico era despertado por uma explosão nuclear e acabava atacando New York. Parece familiar? Pois foi o filme que inspirou uma enorme coleção de lagartos gigantes, do japonês Gojira (1954) e suas várias seqüências ao mais recente Godzilla (1998). Os heróis de The Beast From 20,000 Fathoms são o ator suíço Paul Hubschmid (que mais tarde estrelaria outro filme B clássico, La Morte Viene Dallo Spazio), Paula Raymond (dos filmes de horror Hand of Death e Blood of Dracula's Castle) e Kenneth Tobey (interpretando mais um personagem militar, sua especialidade). Mas a grade estrela do filme é evidentemente o monstro criado por Ray Harryhausen, que aparece em cenas inesquecíveis destruindo um farol, causando pânico num parque de diversões ou lanchando um policial que estava pelo caminho.

Dois anos depois, Ray criou mais um monstro destruidor para It Came from Beneath the Sea (1955), dirigido por Robert Gordon (que mais tarde se dedicaria ao western televisivo das séries Maverick e Bonanza). Desta vez tratava-se de um polvo gigante atacando San Francisco e arrancando um pedaço da famosa Golden Gate Bridge. Com um orçamento baixo, Ray mostrou que sabia economizar de forma criativa e usou um polvo com somente seis tentáculos, detalhe que geralmente passa despercebido pelo público mas que fez grande diferença nos cofres da produção. Kenneth Tobey aparece novamente como herói militar (desta vez, comandante de submarino) acompanhado dos cientistas Faith Domergue e Donald Curtis.

Deixando os monstros de lado, o filme seguinte de Ray Harryhausen foi Earth vs. the Flying Saucers (1956), dirigido por Fred F. Sears. Desta vez o desafio era criar os discos voadores do título e a destruição causada por eles. Mais uma vez com orçamento reduzido, Ray teve até que criar explosões em stop-motion, tarefa trabalhosa, por não terem verba para alugar a câmara de alta velocidade normalmente usada em explosões de miniaturas. Talvez a cena mais impressionante do filme, pela dificuldade de execução em animação quadro a quadro, seja o disco voador sobrevoando um incêndio noturno. A cidade destruída desta vez foi Washington, e os heróis foram os cientistas Hugh Marlowe e Joan Taylor e o militar Donald Curtis (que havia sido cientista em It Came from Beneath the Sea).

O monstro seguinte de Ray Harryhausen foi um de seus melhores, um habitante do planeta Vênus trazido à Terra em 20 Million Miles to Earth (1957), dirigido por Nathan Juran (que mais tarde dirigiria várias séries de ficção-científica para a tv, como Lost in Space, The Time Tunnel e Land of the Giants). A trama tem a mesma estrutura de King Kong, com uma criatura trazida de um lugar distante (uma ilha desconhecida num, um planeta inexplorado noutro) para causar destruição numa grande cidade (New York num, Roma noutro) e terminar numa cena emblemática sobre um marco turístico (Empire State Building num, Coliseo noutro). E, assim como Kong, o réptil bípede venusiano de 20 Million Miles to Earth é uma criatura incompreendida, basicamente um animal tentando se defender dos humanos da forma que pode. Para conseguir esse tipo de interpretação de um boneco animado quadro a quadro, Ray fez um de seus melhores trabalhos de animação, conferindo ao monstro gestos precisos que criavam a ilusão de uma personalidade própria. Como o monstro vai aumentando de tamnho no decorrer da história, surgem várias oportunidades para cenas memoráveis, dos primeiros passos do que parece ser um animalzinho inofensivo ao feroz combate com um elefante. O herói do filme é mais uma vez um militar, interpretado por William Hopper (da série de tv Perry Mason), e a mocinha é Joan Taylor (de Earth vs. the Flying Saucers).

Talvez cansado de destruir metrópoles contemporâneas (em seus filmes já tinha vitimado New York, San Francisco, Washington e Roma), o trabalho seguinte de Ray Harryhausen foi The 7th Voyage of Sinbad (1958), novamente dirigido Nathan Juran, com Kerwin Mathews no papel principal. O mundo de fantasia de As 1001 Noites revelou-se um ambiente perfeito para as criaturas animadas de Harryhausen: um ciclope chifrudo, um dragão vigilante, um esqueleto espadachim, e vários outros. Em seu primeiro trabalho em cores, Ray teve que repensar toda sua técnica de iluminação para contornar novos problemas (entre eles a variação de temperatura de cor das lâmpadas entre uma sessão e outra, que o obrigava a seguir por horas e horas sem um intervalo, para garantir um resultado sem mudanças de cor). Mesmo com estas novas dificuldades, ele mais uma vez se superou e criou seqüências inesquecíveis que influenciariam gerações de novos cineastas. O mais lembrado é, sem dúvida, o esqueleto animado que ataca Sinbad com uma cimitarra, criando uma luta tão interessante que o próprio Harryhausen voltaria ao tema mais tarde, revisando-o e ampliando-o. The 7th Voyage of Sinbad foi o primeiro filme com efeitos de Ray Harryhausen a ser musicado por Bernard Herrmann, criador de várias trilhas sonoras para Alfred Hitchcock.

Continuando na linha da fantasia, o próximo filme de Ray Harryhausen foi The 3 Worlds of Gulliver (1960), dirigido por Jack Sher. O livro clássico de Jonathan Swift merecia melhor tratamento que este fraquíssimo roteiro. Para piorar um pouco as coisas, chamaram para o papel principal o inexpressivo Kerwin Mathews, que já havia sido o Sinbad de The 7th Voyage of Sinbad. A maior parte dos efeitos especiais aqui refere-se à diferença de tamanho entre o protagonista e os habitantes de Lilliput (minúsculos) e de Brobdingnag (gigantescos). Harryhausen ainda teve a oportunidade de criar uma boa luta entre Gulliver e um crocodilo animado, mas o resto do filme se perde num roteiro claudicante e de final moralista e decepcionante.

Muito melhor foi Mysterious Island (1961), dirigido por Cy Endfield, mais uma vez com trilha sonora de Bernard Herrmann. Inspirado no livro de Jules Verne, conta a história de um grupo de soldados da guerra civil dos EUA que, após uma desastrosa viagem de balão, acaba confinado à ilha misteriosa do título. Lá encontram o que todos esperamos ver num filme de Ray Harryhausen, monstros e mais monstros: caranguejos gigantes, galinhas gigantes, abelhas gigantes. O mistério é desvendado com o surgimento do capitão Nemo, o mesmo de 20,000 Leagues Under the Sea, o que leva a história a um clímax envolvendo piratas, um vulcão em erupção, um polvo gigante e a cidade perdida de Atlântida. Ótimo divertimento para ser acompanhado com um balde de pipocas.


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