burburinho

highlander

cinema por Nemo Nox

Que relação pode haver entre dois homens solitários que duelam com espadas antigas numa garagem subterrânea do Madison Square Garden, na New York de 1986, e dois clãs guerreiros, também em batalha mortal, na Escócia de 1536? É justamente o que nos conta o filme Highlander (no Brasil, Highlander, o Guerreiro Imortal), dirigido por Russell Mulcahy em 1986, que já rendeu várias continuações no cinema e na televisão. No mundo dos videoclips, o australiano Russell Mulcahy já era um nome consagrado. Dirigiu Kim Carnes em Bette Davis Eyes, Duran Duran em Hungry Like the Wolf, Rolling Stones em One Hit to the Body, entre muitos outros, e foi o responsável por Video Killed the Music Star, o clip dos Buggles que inaugurou a MTV norte-americana em 1º de agosto de 1981. Mas, apesar de toda esta experiência, Highlander foi somente seu segundo longa-metragem. A estréia aconteceu em 1984 com Razorback, a história de um javali assassino, que agradou a crítica mas não atraiu o público.

Highlander é a história de Connor McLeod (interpretado por Cristopher Lambert, já conhecido na época por ser o Tarzan de Greystoke, de Hugh Hudson), um escocês nascido no século XVI que pertence a uma raça de seres imortais. Seu único ponto fraco, como o calcanhar de Aquiles, é a decapitação. E, segundo uma profecia, só um destes imortais sobreviverá através dos tempos.

Ao curar-se magicamente de uma ferida mortal, McLeod é expulso de sua aldeia rotulado de feiticeiro. Passa então a viver afastado de todos, apenas com a companheira Heather (vivida por Beattie Edney). É então que surge, para desvendar o enigma de sua aparente invulnerabilidade, o também imortal Juan Ramirez (Sean Connery, numa interpretação que quase rouba o filme). Ramirez explica sua origem e seu destino, e treina o ainda jovem McLeod para os combates que deverá enfrentar, principalmente contra o terrível Kurgan (Clancy Brown), mais um de sua raça.

O que até então parecia ser uma benção, a imortalidade, começa a mostrar-se também um fardo, não só pela sina de combater até que só reste um mas também pela dor de perder, ao longo dos séculos, seus mortais queridos. Neste sentido, o romance de McLeod e Heather nos remete ao clássico da literatura de ficção-científica Amor Sem Limites, de Robert Heinlein, onde um homem tem a sua vida prolongada por três mil anos e padece de todos os sofrimentos que isto acarreta.

Quatrocentos e cinqüenta anos depois, McLeod está em New York, flertando com a bela especialista em armas antigas Brenda Wyatt (Roxanne Hart) e ainda combatendo seu maior inimigo, o gigantesco e agora punk Kurgan.

O maior atrativo estético de Highlander é, sem dúvida, a ação paralela, fazendo com que os fatos ocorridos no século XVI e os de hoje sejam narrados alternadamente, com idas e vindas no tempo. E estas passagens de uma época para outra foram realizadas de forma tão criativa e tecnicamente surpreendente para a época que arrancaram exclamações das platéias. O ritmo videoclípico da montagem e a fotografia impecável de Gerry Fisher contribuem também para o sucesso do filme. Há quem torça o nariz para a presença do Queen na faixa sonora, mas muita gente ainda acha que o som da banda combina com temas grandiloqüentes como o de Highlander.

O sucesso do primeiro filme provocou as inevitáveis seqüências. Highlander II: The Quickening, de 1991, dirigido ainda por Mulcahy, é possivelmente a pior continuação da história do cinema. Ressuscita personagens, mistura ficção-científica, nega explicações do primeiro filme, perde-se completamente numa trama trash. Highlander III: The Sorcerer, de 1994, dirigido por Andrew Morahan, com Mario Van Peebles como vilão e Deborah Unger como interesse romântico, tenta resgatar o clima do original numa produção mais modesta, ignorando os acontecimentos do segundo episódio, e quase consegue. Ao menos não dá o vexame do anterior. O quarto filme, Highlander: Endgame, de 2000, dirigido por Douglas Aarniokoski, reúne o protagonista original, Connor McLeod (vivido por Christopher Lambert em todos os filmes), com Duncan MacLeod (Adrian Paul, o ator da série de televisão Highlander).

Com tantas continuações, o primeiro Highlander continua sendo indiscutivelmente o melhor, merecendo ser revisto sem interferência das seqüências. Por trás de todas as roupagens, técnicas, estéticas e mercadológicas, o que verdadeiramente aguça o interesse do espectador é a questão da imortalidade., presente durante toda a ação e fundamental para o desenlace filosófico de Highlander. Afinal, como disse Susan Ertz, "milhões de pessoas que não sabem o que fazer numa chuvosa tarde de domingo anseiam pela imortalidade".


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