burburinho

4'33"

música por Ricardo Bittencourt

Por vezes, eu mesmo me espanto com minha falta de conhecimento sobre a cultura pop atual. Outro dia, uns amigos falavam sobre os horrores de um tal de Tigrão. Fui obrigado a perguntar do que se tratava, e acabei aprendendo que era uma daquelas bandas que fazem sucesso no Carnaval, e depois somem para só reaparecer 15 anos depois no Napster, mais ou menos como o Kaoma. No final, acabei ficando curioso para ouvir a música do Tigrão, apesar de advertido por um amigo que provavelmente aquilo não era música. De fato, há quem diga que, para ser música, uma seqüência de sons precisa de melodia, harmonia e ritmo, e, depois de ouvir o Tigrão, pude verificar que dos três, ele só tinha ritmo.

Mas é claro que a música vai muito além desses três itens. Nos últimos anos houve uma tendência entre os músicos em conseguir formular músicas que transcendessem esses critérios, das maneiras mais curiosas possíveis. O Pierre Henry fazia isso usando derrapadas de carro como instrumentos musicais, o Yellow Magic Orchestra usava barulhos do videogame Atari para compor suas músicas, e assim por diante.

De todos esses experimentadores, provavelmente o mais inventivo foi o John Cage. Inicialmente um compositor de música erudita, Cage logo se entediou com as estruturas clássicas e passou a compor trabalhos mais curiosos. O mais conhecido deles é uma peça para piano intitulada 4'33" (lê-se quatro minutos e 33 segundos). Músicas tradicionais possuem partituras que intercalam notas, de diferentes durações, com pausas. Por outro lado, 4'33" é uma músicas que não possui nenhuma nota, sendo composta inteiramente por pausas.

Na primeira apresentação pública dessa obra, o pianista convidado para interpretar a peça entrou no palco, abriu a tampa do piano, e ficou parado; interrompendo o silêncio ocasionalmente apenas para mudar a página da partitura (afinal, ele estava acompanhando as pausas). Ocasionalmente, ele fechava e abria novamente a tampa do piano, para indicar um novo movimento da música.

O público inicialmente ficou quieto tentar entender o que estava acontecendo. Após um tempo começaram a surgir os cochichos, as conversas, e então os protestos, daqueles que se sentiam lesados por terem pago para não ouvir nada. O nome da música, 4'33", foi o tempo máximo que o público conseguiu ouvir o silêncio sem reclamar. Mais tarde, o autor explicaria que 4'33" não é uma música composta apenas de silêncio. A música, na verdade, era formada pelos sons ambientes dentro do teatro. Ou seja, 4'33" é uma música única, pois é diferente toda vez que é apresentada; e atinge o atual ideal de interatividade, onde o próprio público faz os barulhos de que ela é formada.

Para testar os limites de sua criação, Cage ouviu sua criação dentro uma câmera anecóica, que é uma sala construída de tal modo a cancelar todos os ruídos ambientes. Ainda assim, Cage não ouviu o silêncio absoluto. Ele ainda conseguia ouvir um barulho: o ruído do próprio coração. Ou seja, em sua forma mais pura, 4'33" é uma música formada apenas por ritmo. Mais ou menos como o Tigrão.


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