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o sobrenatural em shakespeare - parte 1

teatro por Renato Modesto

A arte, em todas as suas manifestações, descende do sobrenatural em sua forma religiosa, mítica ou ritualística. A pintura, por exemplo, nasceu com uma função preponderantemente mágica. Pintar um bisão atingido por uma lança era, para o homem primitivo, uma forma de, ritualisticamente, assegurar o sucesso posterior na caça e no embate real. Escultura, música, dança e literatura também tiveram nascimento semelhante, filhas dos rituais primitivos e dos mitos. O teatro, da mesma forma, tem origens transcendentais no culto grego ao deus da fertilidade, Dionísio.

Esse relacionamento entre arte e religião permaneceu, em maior ou menor grau, até os dias de hoje, embora seja claro o processo de dessacralização do fazer artístico ao longo dos séculos, notadamente a partir do Renascimento. Cada vez mais, a arte foi se tornando uma expressão do profano e, via de regra, passou a relacionar-se com os temas sobrenaturais apenas através de um bem fundado distanciamento crítico. Mas, além de princípio da arte, o elemento mágico-religioso foi um dos mais freqüentes temas para os artistas de todos os tempos, chegando a ser praticamente o único em alguns momentos (como na Idade Média).

Durante o período elizabetano, no Renascimento, surge a genial contribuição de William Shakespeare (1563-1616) para a arte dramática. Dentre a inúmeras inovações introduzidas pelo dramaturgo, está uma grande humanização da tragédia. Agora, o herói trágico tem uma maior autonomia, uma maior responsabilidade quanto aos seus atos, fortalecendo-se ou destruindo-se através de suas próprias opções. O divino, o extraordinário e o supraterreno permanecem porém, muito presentes e, apesar de mais responsáveis por suas trajetórias, seus personagens permanecem sujeitos, em maior ou menor grau, às regras do destino e a diversas formas de influências sobrenaturais. Nas obras de Shakespeare encontramos fantasmas. seres elementais, aparições sobrenaturais, monstros, crenças religiosas, bruxas, feiticeiros e homens com poderes mágicos, interação microcosmo-macrocosmo, oráculos e mitologia.

Fantasmas

Os fantasmas aparecem nas peças de Shakespeare dotados de características conferidas pelo imaginário judaico-cristão. São espíritos de mortos, almas penadas, aparições que, mesmo quando nebulosas e evanescentes, guardam a aparência humana, sendo visíveis apenas em alguns momentos e só por algumas pessoas. Os dois principais exemplos são: o fantasma de Banquo, em Macbeth, e o espectro do rei assassinado, em Hamlet.

O general Macbeth assume o trono da Escócia através da traição e do assassinato. Tendo por cúmplice sua esposa, Lady Macbeth, mata o bondoso rei Duncan e proclama-se seu sucessor. O general Banquo, assim como outros nobres, desconfia do crime e, logo, é traído e assassinado a mando de Macbeth. Ao assumir o trono, Macbeth realiza um grande banquete e é durante essa festa, na Cena IV, Ato III, que aparece o aterrorizante fantasma de Banquo.

Difícil dizer até que ponto a imagem é fruto de uma mente desequilibrada pelo remorso, mas, para o aterrorizado Macbeth, trata-se realmente da aparição de um fantasma. Ao ser convidado para sentar-se à mesa, o novo rei diz que não sobrou para ele nenhum lugar. Um dos convidados (Lennox) insiste, dizendo: "Aqui está um lugar reservado para vós, senhor." Macbeth não consegue encontrá-lo e, finalmente, percebe que a cadeira que lhe cabia já está ocupada pelo espectro. Enquanto estraga sua própria festa, dialogando com um espírito que só é visto por ele, Macbeth comenta com sua esposa: "Já ouve um tempo em que, saltado o cérebro, o homem morria e tinha seu fim. Mas agora, os mortos ressuscitam com vinte feridas mortais na cabeça, tirando-nos de nossas cadeiras. Isto é mais estranho do que o próprio crime!"

Em outro momento da cena, numa interessante descrição do fantasma, Macbeth diz: "Arreda-te e sai da minha vista!... Que a terra te esconda! Teus ossos não têm medula, teu sangue é frio, não tens olhar nesses olhos que reluzem!" Banquo, retornando ao mundo dos vivos, tem a intenção de se vingar de Macbeth e, realmente, consegue aumentar as suspeitas que já recaíam sobre ele.

Em Hamlet, o fantasma do monarca assassinado tem uma função ainda mais importante. É ele quem revela ao filho que o trono foi usurpado através do crime e do incesto, incitando o jovem e indeciso príncipe da Dinamarca à vingança. O fantasma é quem dá, assim, o primeiro impulso para a sucessão de acontecimentos trágicos que se seguem.

É muito interessante a rápida descrição que o espectro faz de sua vida no além túmulo (Cena IV, Ato I), claramente influenciada pelas crenças católicas e sua separação entre céu, purgatório e inferno: "Sou o fantasma de teu pai. Condenado, por algum tempo, a vagar pela noite e, durante o dia, confinado às chamas devastadoras, até que as faltas e crimes que cometi sejam purgados. Mas sou proibido de contar-te os segredos de minha prisão".

Vale notar que, em ambas as peças, os fantasmas são de homens assassinados. Por terem morrido de forma não natural, permanecem presos ao mundo físico e vagam num limbo entre o plano físico e o espiritual. São almas penadas ou espectros e sua libertação só é possível depois que os crime que os vitimou seja vingado. Talvez a fala mais famosa desses interessantes personagens de Shakespeare seja a frase final do espectro do pai de Hamlet: "Hamlet, lembra-te de mim!".


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