burburinho

o homem da máscara de ferro

cinema por Nemo Nox

Leonardo DiCaprio já mostrou interpretações excelentes, como por exemplo em Gilbert Grape Aprendiz de Sonhador (What’s Eating Gilbert Grape?, EUA, 1993, de Lasse Hallstrom), mas depois parece que se transformou definitivamente de ator em estrela, deixando que a sua presença pura e simples ultrapassasse a importância de seus dotes dramáticos. Em O Homem da Máscara de Ferro, (The Man in the Iron Mask, EUA, 1998, de Randall Wallace), logo depois do mega-sucesso Titanic, o que ele nos oferece são arremedos de interpretação, num papel duplo (sim, dois Leonardos num só filme!), variando entre o mauzinho efeminado Louis e o bonzinho aparvalhado Philippe. As suas limitações artísticas ficam ainda mais evidentes porque contracena com veteranos de primeira linha, os quatro mosqueteiros Jeremy Irons (Aramis), John Malkovich (Athos), Gérard Dépardieu (Porthos) e Gabriel Byrne (D'Artagnan). Ao contrário de Tom Cruise, que dá o seu melhor quando divide a tela com raposas velhas (com Paul Newman em A Cor do Dinheiro ou Dustin Hoffman em Rain Man), Leonardo apaga-se e perde-se em cacoetes. O que certamente não influencia muito as bilheterias, porque o seu público quer ver o ídolo, não um bom filme.

São exatamente os veteranos Irons (de Gêmeos, Mórbida Semelhança, onde também fazia um papel duplo, porém com maestria nem sonhada por DiCaprio), Malkovich (de Ligações Perigosas), Dépardieu (de Cyrano de Bérgerac) e Byrne (de Os Suspeitos) que dão alguma consistência à história, com momentos que variam do meramente competente ao genuinamente inspirado. A trama, infelizmente, desvia-se muito do original de Alexandre Dumas, o que parece ser cada vez mais a tendência do cinema norte-americano (entre os clássicos recentemente desfigurados, temos Dracula de Bram Stoker, Frankenstein de Mary Shelley, O Conde de Monte Cristo de Dumas, Ilíada de Homero, e vários outros).

O desenho de produção de O Homem da Máscara de Ferro é muito bom, com uma verossímil recriação tanto dos ambientes sofisticados como das prisões nojentas, e um figurino que nada deixa a desejar. Menos cuidado, porém, foi tomado em relação aos diferentes sotaques do elenco. Dépardieu, por exemplo, como bom francês, é o único capaz de pronunciar corretamente o nome de D’Artagnan. Em compensação, seu carregado sotaque prejudica um pouco a compreensão do que diz seu personagem bufão, e contrasta desnecessariamente com o de seus companheiros. Não bastasse isto, DiCaprio fala, como sempre, com forte pronúncia californiana, deslizando feio ao dizer os nomes de outros personagens.

Com todos os seus erros e acertos, O Homem da Máscara de Ferro é um filme que pode divertir um pouco em alguns de seus melhores momentos, mas que está condenado ao esquecimento, a não ser pelo fã-clube de Leonardo DiCaprio. Uma pena, porque a intenção original da história fica perdida, e tudo parece circular unicamente em torno da troca de um reizinho mau por um reizinho bom, quando o ponto mais interessante do enredo é a questão do valor dos veteranos numa sociedade que sobrevaloriza os jovens. O que, ironicamente, espelha-se com perfeição no elenco do filme.


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